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sábado, 11 de julho de 2015























A GAIVOTA MORTA

Não morrerás jamais minha gaivota
suprema ave do mar, pobre princesa
estás na alma do poeta presa
enquanto a alma do poeta é morta
Suprema alma do poeta viva
suprema alma da gaivota morta
com a tua morte a vida fez-se altiva,
com a minha vida encontro a mesma porta.
Negra ave do céu, cativa e eterna,
tu pairas sobre o mar depois de morta
eu pairo nesta vida que se inferna.
Negra gaivota morta, vida minha.
Tuas asas perdi em em hora torta
na terra te ganhei como rainha

ÂNGELO MONTEIRO
(In As Armadilhas da luz)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014























DA ADORAÇÃO EXPECTANTE IV

                                                         Ângelo Monteiro

Por sobre um mundo plano e tão conforme,
sem vastidões, sem ondas, sem mistério,
foi que tu, confidente dos abismos,
confabulaste com o meu ser eterno.

E despertaste em mim o amor do abismo
ou essa vocação ilimitada
que temos para amar os imprevistos,
para enfrentar sorrindo o próprio nada.

Contra o carbono dos surrados dias,
a desfiarem seu tédio e seu cansaço,
apontaste a voragem por espaço

e as longínquas paragens de onde viemos,
totais e puros: toda esta magia
que, faltos de paixão, adormecemos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014




















EU DEIXARA ESTE VERDE COMO HERANÇA

                                                                          Ângelo Monteiro

Eu deixara este verde como herança,
se do peso do verde, libertado,
pudesse o mar em mim enclausurado,
rebentar as barreiras da esperança.

Ó ditoso país da remembrança,
cujo mar não me afoga, mesmo irado.
Mas se divide em dois, e desmembrado,
abre lúcida margem que me alcança.

Tal não é este mar, sempre agitado,
que trago dentro em mim, capturado,
na fé, no amor e na desesperança.

Como quem traz em si a força e o fado.
E, posto que este mar seja sonhado,
eu vos deixo o seu verde como herança.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

















SONETO DE TORTURA E DESENCANTO

Não sei que angústia me incomoda o peito
que não posso estar firme nem parado.
Com o pensamento sempre desvairado,
falta-me calma até quando me deito.

A noite vago as ruas, odeio o leito,
não durmo, não descanso, não me enfado,
não fujo, não me mato, e o rosto irado
até de rir perdeu a forma e o jeito.

Por isso não te admire, amiga minha,
que ternura hoje em dia me careça
na voz, que tantas vezes te acarinha.

Mas é que sofro de sentir diverso:
e onde repousarei minha cabeça,
se a dor humana não couber num verso?


Ângelo Monteiro

terça-feira, 29 de abril de 2014

Meditação Sobre as Águas - Ângelo Monteiro




















Nunca nos repetimos: ainda ante velhos fantasmas.
No búzio em que o escuto o mar não se perdeu.
No fluir dessas águas persigo a luz da esfera.
Nas margens desse mar que pátria renasceu? 

Se a doutrina do mar não for a verdadeira,
as outras não o são. (Escuto o mar, que é meu.)
Tanta nave sobre essa antiga casa:
casa tão ampla ao nosso parco ser.
E onde a chave perdida
sobre as ondas que vêm e as ondas que vão?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Discurso sobre o vazio - Ângelo Monteiro



Dura necessidade
de invocar os objetos,
como se dependêssemos
deles para existir. 

Como se o seu vazio
fosse menor que o nosso:
nós que usamos palavras
por medo do silêncio.

terça-feira, 25 de março de 2014

A visão de um anjo de costas - Ângelo Monteiro

























Não é por mero protesto
nossos cabelos nos ombros:
somos bem pouco terrestres,
somos mais venusianos. 

Escondem asas secretas
estes cabelos que usamos:
como todos os estetas
as coisas prefiguramos.

De modo que as imagens
das vossas alegorias
são bem pouco, comparadas
com a nossa telepatia 

e o nosso poder de usar
só as palavras supremas:
não somente as necessárias,
mas aquelas que o homem teme. 

O resto comunicamos
por meio dos nossos olhos:
em nós, poços de energia,
em vós, poças de silêncio. 

Nem contempleis nossos ombros:
cabelos vertiginosos
e tênues, como os abismos,
perturbarão vosso sono.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Discurso sobre o Vazio - Ângelo Monteiro

Dura necessidade
de invocar os objetos,
como se dependêssemos
deles para existir. 

Como se o seu vazio
fosse menor que o nosso:
nós que usamos palavras
por medo do silêncio.

Cantigas de Fingimento VIII - Ângelo Monteiro

















Escrevo como quem nada
sabe dizer, mas dizendo
a mão sinto arrebatada
para o que eu não compreendo:

Mesmo sem saber a estrada
não me entrego nem me rendo. 

Quero dormir. Só o sono
me interessa e nada mais.
Em vão procuro abandono
para o meu corpo sem paz: 

Mas meu invisível dono
minha vontade não faz.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Dos Limites do Corpo e do Poema - Ângelo Monteiro



















Não, não quero a euforia fácil dos bêbados.
A bondade fácil dos bêbados.
A ternura pegajosa dos bêbados.
Não quero o desfibrado entusiasmo
dos que são cativos das acrobacias dos tempos
antes de serem os tempos conjugados.
Filhos do puro jogo, porém imunes
ao fogo da Palavra. Por isso
quero todos os tempos do corpo
concentrados. Porque só aquilo
que se concentra sobre si mesmo é eterno.
Quero o mar concentrado e não disperso.
Quero enfim, o infinito. E nada impede
ser infinita uma coisa por ter margens.
Nós nascemos também tendo um corpo na vida.
Assim um poema. Assim tudo: em forma e substância,
a moldura do tempo faz eterno.
Quero o poema de um amor difícil:
como o sopro de um deus nascido em nós.
Que nenhuma palavra lhe anteceda.
Porque nada acontece à própria origem.

Soneto do Desencontro - Ângelo Monteiro















Sempre haverá a noite pelo espaço
por mais astros que brilhem nos teus olhos.
Quando uma música tristíssima soando
convencer-te que a tua é transitória.

A nostalgia habitará por certo,
descida não sei donde, o teu solar.
E entre nuvens pretéritas sonhando
buscarás impossíveis reencontros

que nunca se darão, porquanto mortos
os tempos em que o ideal, qual lua plena,
boiava imortalmente sobre os céus.

Algo mudou decerto o rumo e a sorte
das setas desfechadas contra a noite
e cravadas no espaço sem memória.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

DOS LIMITES DO CORPO E DO POEMA - ÂNGELO MONTEIRO




















Não, não quero a euforia fácil dos bêbados.
A bondade fácil dos bêbados.
A ternura pegajosa dos bêbados.
Não quero o desfibrado entusiasmo
dos que são cativos das acrobacias dos tempos
antes de serem os tempos conjugados.
Filhos do puro jogo, porém imunes
ao fogo da Palavra. Por isso
quero todos os tempos do corpo
concentrados. Porque só aquilo
que se concentra sobre si mesmo é eterno.
Quero o mar concentrado e não disperso.
Quero enfim, o infinito. E nada impede
ser infinita uma coisa por ter margens.
Nós nascemos também tendo um corpo na vida.
Assim um poema. Assim tudo: em forma e substância,
a moldura do tempo faz eterno.
Quero o poema de um amor difícil:
como o sopro de um deus nascido em nós.
Que nenhuma palavra lhe anteceda.
Porque nada acontece à própria origem.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Eu deixara este verde como herança - Ângelo Monteiro




















Eu deixara este verde como herança,
se do peso do verde, libertado,
pudesse o mar em mim enclausurado,
rebentar as barreiras da esperança.

Ó ditoso país da remembrança,
cujo mar não me afoga, mesmo irado.
Mas se divide em dois, e desmembrado,
abre lúcida margem que me alcança.

Tal não é este mar, sempre agitado,
que trago dentro em mim, capturado,
na fé, no amor e na desesperança.

Como quem traz em si a força e o fado.
E, posto que este mar seja sonhado,
eu vos deixo o seu verde como herança.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Soneto de tortura e desencanto - Ângelo Monteiro



















Não sei que angústia me incomoda o peito
que não posso estar firme nem parado.
Com o pensamento sempre desvairado,
falta-me calma até quando me deito.

A noite vago as ruas, odeio o leito,
não durmo, não descanso, não me enfado,
não fujo, não me mato, e o rosto irado
até de rir perdeu a forma e o jeito.

Por isso não te admire, amiga minha,
que ternura hoje em dia me careça
na voz, que tantas vezes te acarinha.

Mas é que sofro de sentir diverso:
e onde repousarei minha cabeça,

se a dor humana não couber num verso?