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Mostrando postagens com marcador Paulo Leminski. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020


























ATRASO PONTUAL

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vêm sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?


Paulo Leminski

domingo, 26 de julho de 2015

















Amor, então, 
também acaba? 
Não, que eu saiba. 
O que eu sei 
é que se transforma 
numa matéria-prima 
que a vida se encarrega 
de transformar em raiva. 
Ou em rima. 


Paulo Leminski

quinta-feira, 2 de julho de 2015



















lembrem de mim 
como de um 
que ouvia a chuva 
como quem assiste missa 
como quem hesita, mestiça, 
entre a pressa e a preguiça 


Paulo Leminski

sábado, 3 de janeiro de 2015




























Aço e Flor 

Quem nunca viu 
que a flor, a faca e a fera 
tanto fez como tanto faz, 
e a forte flor que a faca faz 
na fraca carne, 
um pouco menos, um pouco mais, 
quem nunca viu 
a ternura que vai 
no fio da lâmina samurai, 
esse, nunca vai ser capaz.


Paulo Leminski

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014


















Foto: Flickr


já me matei faz muito tempo 
me matei quando o tempo era escasso 
e o que havia entre o tempo e o espaço 
era o de sempre 
nunca mesmo o sempre passo 

morrer faz bem à vista e ao baço 
melhora o ritmo do pulso 
e clareia a alma 

morrer de vez em quando 
é a única coisa que me acalma


Paulo Leminski

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014




























Drummond-Se
A lua no cinema
A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!
Paulo Leminski

sábado, 22 de novembro de 2014






















PARA UMAS NOITES QUE ANDAM FAZENDO
deixe eu abrir a porta
quero ver se a noite vai bem
quem sabe a lua lua
ou nos sonhos crianças
sombras murmuram amém
deixe ver quem some antes
a nuvem a estrela ou ninguém
Paulo Leminski
In O Ex-estranho

sábado, 25 de outubro de 2014

















LÁPIDE 1 
epitáfio para o corpo 

Aqui jaz um grande poeta. 
Nada deixou escrito. 
Este silêncio, acredito 
são suas obras completas. 

LÁPIDE 2 
epitáfio para a alma 

aqui jaz um artista 
mestre em disfarces 

viver 
com a intensidade da arte 
levou-o ao infarte 

deus tenha pena 
dos seus disfarces


Paulo Leminski

sexta-feira, 17 de outubro de 2014





















quando eu tiver setenta anos 
então vai acabar esta minha adolescência 

vou largar da vida louca 
e terminar minha livre docência 

vou fazer o que meu pai quer 
começar a vida com passo perfeito 

vou fazer o que minha mãe deseja 
aproveitar as oportunidades 
de virar um pilar da sociedade 
e terminar meu curso de direito 

então ver tudo em sã consciência 
quando acabar esta adolescência



Paulo Leminski

quinta-feira, 2 de outubro de 2014


Fotografia de Samad Ghorbanzadeh



Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.

Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Paulo Leminski

terça-feira, 5 de novembro de 2013




Eu quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro ou está por fora
quem está por fora
não segura um olhar que demora


Paulo Leminski

sexta-feira, 6 de setembro de 2013


















Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?



Paulo Leminski

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Dor elegante - Paulo Leminski


















Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

terça-feira, 25 de junho de 2013





















Bem no fundo
Paulo Leminski

No fundo, no fundo, 
bem lá no fundo, 
a gente gostaria 
de ver nossos problemas 
resolvidos por decreto 

a partir desta data, 
aquela mágoa sem remédio 
é considerada nula 
e sobre ela — silêncio perpétuo 

extinto por lei todo o remorso, 
maldito seja que olhas pra trás, 
lá pra trás não há nada, 
e nada mais 

mas problemas não se resolvem, 
problemas têm família grande, 
e aos domingos 
saem todos a passear 
o problema, sua senhora 
e outros pequenos probleminhas.