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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016




















ORIENTAL

Recusar na primavera
os saibros em Saigon
enunciar em ecrã
a vida-desperdício.
Legar à cultura-mãe
meu abandono e
sob a musa
zunir um sonho
horroroso.
Acordar em Ulan Bator
lamuriar as árvores
patentear cavalos
entre duas fronteiras
ser vermelha.
Enrugar meu rosto
foragir meu vento
sumir dos campos
até que o volga
me refaça
fluvial
e me interligue.
Depois a pé
muito longe
um Bashô
me escreveria.


Roberta Tostes Daniel

sábado, 2 de janeiro de 2016


















Deus me abre a corcova de pregador
esqueço parábolas.
O ódio acumula no tempo, nos móveis pesados.
Tudo perdi. No entanto, o amor das coisas breves.
No entanto, a ancestralidade.
Com os olhos desfolhados, as mãos cheias de feitiço
póstumas as mãos, a rondar o real além do real.
A neve suja do sol, Simenon, três vidas
a mancha o eixo infinito
do homem ordinário.
Quisera esvair o deserto
chamar de norte o começo
traficar palavras.
Tornei-me a arma
que me cala.


Roberta Tostes Daniel
Fonte: https://sedemfrenteaomar.wordpress.com/


















Se cortam meus cabelos
as raízes
ou as pernas de Nijinsky
tudo constitui o fato central
de a vida ter seu eco no abismo.
As monções do pólen
devoram probabilidades
de haver certeza no vazio.
Mas o vazio é um ressurreto
que salta como um Deus
no alumbramento de Petrushka.
Cresce sempre e mais
que a paródia do domínio
a máquina da aparência
ou o feitio dos bosques.
Onde as sobras ainda vicejam
as sombras são como raios
e a revolta ainda não foi domada.


Roberta Tostes Daniel
Fonte: https://sedemfrenteaomar.wordpress.com/






















TRANSBARRAGEM

“Quiero existir más allá de
mi mesma: com los aparecidos”
Alejandra Pizarnik

vísceras vísceras
expostas vísceras
quero encontrar meu corpo destroçado
quero exumá-lo da omissão
há soterramentos de mim
vísceras vísceras
afluentes de merda
sair como larva
no breu cessar
vísceras, vísceras
se cessamos de dizer
do que é feita a lama
se deixamos de lutar
se nos rastejamos
vísceras vísceras
para cavar
um covil
diante do desastre
cegos
pisoteados por outros agentes
cegos
vísceras vísceras
expostas vísceras
eu sou tóxica
você é tóxico
quando abrirão as
verdadeiras comportas?
vísceras
vísceras
quem são os vivos?
quem são os mortos?

Roberta Tostes Daniel

Fonte: https://sedemfrenteaomar.wordpress.com/

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015


















                                    Foto: Sinisia Coni

Deus me abre a corcova de pregador
esqueço parábolas.
O ódio acumula no tempo, nos móveis pesados.
Tudo perdi. No entanto, o amor das coisas breves.
No entanto, a ancestralidade.
Com os olhos desfolhados, as mãos cheias de feitiço
póstumas as mãos, a rondar o real além do real.
A neve suja do sol, Simenon, três vidas
a mancha o eixo infinito
do homem ordinário.
Quisera esvair o deserto
chamar de norte o começo
traficar palavras.
Tornei-me a arma
que me cala.
Roberta Tostes Daniel