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quarta-feira, 9 de março de 2016
















Passeio no Parque
(Óleo sobre tela, de Seurat)

Neste parque imutável
até hoje passeiam
estes homens de escuro
e estas frágeis mulheres
Até hoje as flores, os cristais
e as toalhas
são sem mácula
nas salas de esperar
o amigo, o amado
ou a chuva passar. Nada
de apocalipse
a terrível Besta e poços
insondáveis. Nada
a relembrar o abismo
que somos.

Celina de Holanda















O CICLO

Na sala o espelho,
a rua na sala, a moça
o relógio ao contrário.

A moça decide o cabelo
à altura do amado,
que decide o seu sol
à altura da vida, de muros
tão altos.

Celina de Holanda













RETORNO

Este chão é pausa.
Deem-me a infância
para que eu retorne
reencontre meu chão,
seu verde, seus marcos,
seu barro plasmável.

Quero saber de novo
de terreiros limpos
com vassouras verdes

do tempo correndo
branco como um rio,
carregando as roupas
qual nuvens mais alvas.

Massapê das margens,
sapatos de lama,
toalhas de vento
e o regresso limpo,
lento como a tarde.

Celina de Holanda













AS VIAGENS

Viajo nos livros que faço,
mas sempre torno,
para escrevê-los
onde a vida
é uma menina pobre chorando
entre as moitas.
Trago-a de volta
ao seu colo, sua casa,
até que venha e me leve
o meu amado.

Celina de Holanda














COLCHA DE RETALHOS

No chão da casa depositei as malas
E me sobraram braços
(meu nome
perdido em sua voz, não me chamava)
era a noite onde as coisas terminam
a interminável.
Agora
Setecentos e vinte e seis dias depois,
Um ar de chuva atravessando o rio,
Sento na máquina e recomeço a vida,
Só retalhos.

Celina de Holanda











MERIDIANO

Vivemos a grande noite.
Cada amor em seu amor
se oculta.

Quem nos roubou a ternura
escondida? O corpo claro
e diurno?

Como os animais e as crianças
um dia a vida será só vida.

Celina de Holanda