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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015




















Beijo no olho
 
O mundo inteiro que tu vês
atrás das pálpebras que beijei
é isso mesmo, menina:
um vale raso só de tédio
e um poço fundo de mistérios,
uma ave é abatida em pleno vôo
e nasce uma flor no cemitério,
um riso estala na manhã,
com o cheiro morno de café moído,
e um pranto escorre no ocaso,
como visgo mofado nas paredes.
Aqui arde o fogo da paixão sem nome
e lá estala o gelo da indiferença vã,
um sorriso de bebê paira no espelho
e um punho hostil te fere a face.
O mundo em pedaços que tu vês
dentro das pálpebras que fechas
é assim mesmo, mocinha:
uma bomba explode no jardim
e o ser amado se despe no chuveiro;
um cálculo duro te macera o rim
e a brisa da noite, com cheiro de jasmim;
colhes um beijo sem dono na rua
e no quarto destilas o fel desse pavor;
pulas um frevo de celebração
e choras um cadáver em cantochão;
chove forte nas palmas dos oásis
e o sol te invade as praias do deserto;
mordes o pão com enxofre da desgraça
e te embriagas com o vinho da consolação.
O mundo incerto que tu vês
diante das pálpebras que abrirás
é nosso mesmo, mulher:
ei-lo, o tempo esparramado no solo
e o espaço, imenso como um grão
- muita companhia , toda a solidão.
Pedes um pouco de guerra
na paz de uma canção;
entregas um gole a quem te pede água,
mas negas um naco a quem te pede um pão.
Esse mundo sem porteira ou rumo,
um saco de merda, um frasco de luz,
é um mundo velho, novo e sem segredo,
parece uma peneira, cabe num pandeiro
e bate ao ritmo de teu coração.

José Nêumanne Pinto

















Ode ao pó
 
Açúcar é assim:
brilho vermelho na melancia,
mancha verde na uva-itália
e na maçã verde,
mas todo branco quando só
e branco inteiro enquanto pó
(força de fortes
droga de débeis).
Gelado e molenga
no sorvete de açaí;
a cara-metade do caramelo,
embebido em compressas,
tostado em fogo lento.
Há açúcar na polpa
e açúcar na papa.
Há açúcar do engenho,
de forno e fornalha.
Açúcar é assado:
o suor do camponês pulverizado,
sacos de cristal na prateleira,
valendo ouro no mercado,
virando merda no organismo,
bela merda,
doce merda,
...merda...
Açúcar é assombro:
à sombra do Hades,
as águas do Ganges;
panacéia do avesso
e dor das paixões
e cor das paixões
se esparramando, líquida,
na esclerose de minhas veias,
minhas veias velhas.
Veneno e garapa,
a mó, o mel, o mal,
a morte feito gosto
invade meu sonho,
me habita o pesadelo
num aviso de sol morno:
o passo lerdo,
o pinto casto,
o cuco morto.
E dá sinais de olho posto:
a vida breve,
a arte curta,
o gole brusco,
a cinza fria,
um dó de peito
e o pó sem fundo,
ao qual haveremos
de tornar
- todos.

  
José Nêumanne Pinto
São Paulo, manhã de 18 de novembro de 2000