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domingo, 27 de março de 2016















Certa vez, Fernando Pessoa
perguntou ao Sá Carneiro:
“De que cor será o sentir?”
E eu respondi assim:

De que cor ficou o Sá Carneiro
com tamanha interrogação?
Decerto que o poeta traz no bolso
todas as cores.

Mas definir a cor do sentir
deve ser tão duro
quanto o próprio silêncio
que antecedeu a resposta
(se houve resposta)
imagino a pessoa do Sá
na pessoa do Pessoa.

De que cor o Pessoa pensou
que o Sá iria pensar?
Pergunto porque já estou pálido
de virar noites à dentro
espantando moscas e mosquitos.

Ontem por sinal
             nadei

                              nadei

                                              e nada.

“Vou terminar morrendo afogado dentro dos fatos”

Alguém dos Aflitos saberia?
Já disseram por aí
que na lata do poeta
“Tudo nada cabe”.
E a mim só me cabe
chutar a lata.

Pois é dentro da lata que encontramos
tudo aquilo que não é lata.

Quanto à cor do sentir
cada um que sinta por si.

Miró
em “Ilusão de Ética”

quinta-feira, 24 de março de 2016






















ANZÓIS DE OLHOS

cai
e não sei como fugir
dessa armadilha
anzóis de olhos
no meu coração
profundo mergulho de
mim na imensidão de ti
me procuro nos teus
sonhos e me encontro
sorrindo
como as plantas
no cair da tarde
chuva chuva chuva
Insistindo no calor das lembranças
eu sou um ser resumido
a tintas e papéis
segredo segredo segredos
abrindo túmulos na zona de luz
misteriosa magia das palavras
amor amor amor
tantas outras dançam no espaço
mas é que dentro do meu peito
mora uma mulher de olhos
claros de lua
desejos de quebrar tijolos
e desenhar uma nova estrada

Miró
em "Quem descobriu o azul anil"

terça-feira, 22 de março de 2016

















                                                      vemKacilda


Aqui são quatro e meia
e uma saudade medonha.
Esta minha ausência de letras
é porque estava viajando
e viajando.
Quando voltei
sua carta estava no chão da minha
saudade.
Voltei
e aqui vou neste corre-corre
de palavras soltas ao vento.
Keninho está em silêncio
mas fala alto com os olhos
tá mandando um sol de felicidade
ele não é amigo íntimo
das palavras
cê entende né?
Toda pessoa é uma
nave que voa
e voando vamos pousando
nossos pássaros na folha
branca do papel

Miró
em "Quem descobriu o azul anil"

quarta-feira, 16 de março de 2016















ESTÓRIA
               COMPACTA
                                 DA ORIGEM
                                                    DO MUNDO

Há milênios atrás
uma luz
não sei se vinda de
outra luz
fez-se luz
e vieram os homens
e logo ali ao lado
as palavras
dando nome às coisas

Miró
em "Quem descobriu o azul anil"

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016














PECADO ACESO CLARO

Não quero saber o nome
do meu pecado
eu caminho
nos caminhos que a lua
reluz
e reduz
o homem no homem
simples e puro
qual os pivetes de Angola
navego agora:
Todo tempo de um barco
ancorado no cais
da minha utopia noturna
acendo um cigarro
por acender claro
a energia é outra coisa mais bela
e não cabe entre os dedos meus
e quando amo
é o mundo que ama

Miró

terça-feira, 25 de agosto de 2015






















CLARINHO

Joguei todos os meus sonhos
medonhos
no mar
e agora espero novas ondas
com seios morenos
espuma do mar
saia branca das sereias
cansadas de amor
Areia,
palco de luz
espelho do céu
vem dormir comigo
neste quarto sem portas
Trincos de caracol
para enfeitar a lua
Hoje à noite
irei dormir no mar
Vou despertar os deuses
do amor
que foram náufragos
em meus sonhos medonhos
vou dormir no mar
Hoje vou ser
claramente
um negro.

Miró da Muribeca
"Quem descobriu o azul anil?"