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domingo, 6 de março de 2016
















ETIMOLOGIA 
POÉTICA
Publicado em recortes por Lucas Neves

Falamos e escrevemos todos os dias, o tempo todo. 
Temos consciência do significado dos termos que 
usamos, mas será que eles sempre foram assim?
Como surgiram? Que carga de conteúdo, história
e cultura cada palavra carrega consigo?
Garanto que muitas são admiráveis. Delicie-se!

Pelo o que sabemos até então, o ser humano é o único animal que dá nome às coisas. Sentimos essa necessidade: nomear. Tudo precisa de um título, de um rótulo, enquadrar-se numa tabela. Isso, às vezes, é doentio; entretanto, geralmente é fruto de um medo comum e supremo: o medo do desconhecido. Ao nomear algo estranho, tornamo-nos mais íntimos dele. A coisa que antes assustava agora é comum, tem nome, significado e, finalmente, podemos encará-la.
Ah, é aí que eu queria chegar: significado. Vamos adquirindo a linguagem ao longo da infância, decorando nomes, aprendendo termos. Não questionamos muito, apenas tomamos conhecimento de que a palavra X tem um significado alheio a todas as outras, mas pode assemelhar-se com a palavra Y em certos aspectos. Dizendo assim, parece complexo, mas fazemos isso desde que nos conhecemos por gente. A questão é: quem nomeou tudo? Que trabalho magnífico essa pessoa fez! Saiu por aí, com um bloquinho, dando nomes a cada elemento que viu pela frente. Fantástico! Ora, claro que não foi assim. Vamos ver...
Tem um livro famoso, um grande best-seller, que circula por este planeta há alguns séculos, você deve conhecer, é a Bíblia. Nesse livro diz que, em determinando momento da história humana, nossa espécie resolveu construir uma torre para chegar até o Criador. Boatos de que o Cara não curtiu muito e, como castigo, confundiu a língua de toda a humanidade que, até então, falava um único idioma. Devo expressar um pensamento aqui, não consigo contê-lo: ou fizemos do limão uma grande limonada, ou esse castigo fora um enorme presente. Brincadeiras à parte, convenhamos que a riqueza de cada idioma torna nosso mundo fascinante e bem mais agradável, não é?
O idioma é uma arte! Impressionante a maneira como cada língua do mundo consegue expressar o mesmo sentimento por palavras diferentes. Alguns termos, às vezes, são exclusivos de um único idioma, é o caso de saudade, o substantivo lindo, nosso xodó, só nosso!
O fato é que, por mais diferentes que as palavras pareçam, elas seguem um padrão, um modelo. Esses modelos são como formas, que vão sobrevivendo por séculos, perdendo a transparência, o significado evidente, mas carregando para toda a eternidade uma raiz elucidativa, uma palavra mãe. Acho que este é um bom momento para conhecermos algumas mães de nosso fascinante idioma.
Etimologia é o estudo (lê-se: arte) da origem das palavras, sabemos. É evidente que cada palavra tem uma origem e eu, por não ser um dicionário etimológico, não vou ficar aqui citando uma por uma. Falaremos sobre as que mais me tocam, aquelas que me fizeram sorrir. Sei que estou baseando tudo no meu ponto de vista, mas você pode discordar à vontade. Discorde. Discordância. Discórdia. Acho que começamos bem...
Em Latim, cor significa "coração". Num caso específico da língua, essa palavra pode aparecer como cordis, significando "de coração". Já cum, em Latim, dá a ideia de união, junto de algo. Logo, cum + cordis resultou um concordar, unir corações. Entrar em concordância com alguém é, etimologicamente falando, unir dois corações a uma só ideia. O prefixo des, personagem marcante no nosso português, fornece a ideia de separação, negação. Sendo assim, discordar de algo é separar corações. Aproveitando o gancho, saber algo "de cor" é saber de coração, em inglês é mais evidente, pois a expressão by heart é muito mais clara. Por essas raízes também temos cordial, concórdia, etc...
Não gostou? Não saia reclamando ainda, acalme-se! Me respeite. Respeito. Respeito é bom, disso todos sabemos, mas também tem uma origem bacana. O verbo latino spectare, significa assistir, ver, olhar, daí temos espectador, por exemplo. O prefixo re concede a noção de repetição, como, por exemplo, em refazer e reler. Nesse caso, re + spectare originou respeito, palavra que diz, basicamente, "olhar de novo". É mais legal do que parece, juro. Ter respeito por alguém é considerar a opinião dessa pessoa, é querer evitar o sofrimento e a desaprovação dela. Por isso olhar duas vezes, respeitar é considerar a existência, parar um pouco antes de qualquer atitude para rever aquilo que consideramos. Definitivamente, precisamos disso, respeito é importante.
Por falar em importante, vamos a ela. O prefixo in significa dentro, o inglês mantém essa noção claramente. Há um verbo latino, portare, que possui a ideia de movimento, levar algo, carregar. Temos, daí, importação e exportação, por exemplo. Importante então é in + portare, levar/carregar para dentro. Dar importância para algo é carregar essa coisa dentro de ti, ser importante para alguém é ser carregado para dentro daquela pessoa. Ser importante é ser amado, posto que amar é viver no outro.
Aprendendo algumas palavras, podemos começar a deduzir muitas formações. Deduzir. Induzir. Traduzir. Agora o verbo é ducere, significa guiar, levar. Induzir é, portanto, levar por dentro. O prefixo trans significa "do outro lado", trans + ducere resulta em traduzir, levar para o outro lado, para outra língua, outra cultura. Esse verbo (ducere) também dá origem a ducto, viaduto (via significa estrada), etc...
Para fugir um pouco do Latim, vamos ao indo-europeu, idioma suposto que deu origem a muitas línguas clássicas. Dessa língua herdamos um radical interessante: greg-, que significa "rebanho". Já ouviu falar que o ser humano é um ser gregário? Significa, pois, que andamos em conjunto (cum + junctus). Temos também a palavra agregar, acrescentar ao rebanho; segregar, separar do rebanho; e congregar, juntar o rebanho.
Existem significados que exigem uma pesquisa mais profunda. É o caso do nome do primeiro mês do ano, janeiro. Chamado assim em homenagem ao deus romano Janus, que possuía duas faces, enxergava o passado e o futuro ao mesmo tempo. Faz sentido, pois é o mês no ano em que estamos presos ao ciclo que se encerrou (passado), mas geralmente otimistas com o que virá pela frente (futuro).

Entre passados e futuros, vivemos mesmo é no presente, palavra que não precisa de etimologia para ser poética, pois já traz um sentido esplendoroso. Presente, oferta, dádiva. É o que temos para hoje e todos os dias. Pois que sigamos vivendo, construindo e proporcionando a manutenção de nosso idioma e, consequentemente, transformando nossa história.

© Fonte: obvious: http://obviousmag.org/elucubrado_retumbante/2016/etimologia-poetica.html#ixzz428ge3PZ3 
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domingo, 28 de fevereiro de 2016

O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS - UMA JORNADA PELA HISTÓRIA POLÍTICA DO SÉCULO XX
O título do livro faz referência ao trecho em que o personagem e narrador Iván -
um escritor desiludido que vive em Cuba, país que passa por dificuldades
econômicas com o fim da ajuda da União Soviética, e às voltas com seus próprios
dramas pessoais - em um de seus passeios pela praia, chama sua atenção um
homem misterioso que costuma passear com seus cachorros da raça borzói, uma
raça de galgos russos que Iván conhecia bem por trabalhar em uma clínica
veterinária. Acaba por isto travando uma certa amizade com esse homem.


Um ótimo romance histórico que mistura ficção e realidade, considerado o
melhor de 2013, ano de seu lançamento. O livro narra os acontecimentos que
culminaram com o assassinato de Leon Trotsky à mando de Josef Stálin,
secretário-geral do Comité Central do Partido Comunista da URSS, relatando ao
mesmo tempo a história de Trotsky e de seu assassino, o espanhol Ramón
Mercader, um militante recrutado pela NKVD da antiga União Soviética, mais
exatamente na tradução para o português, como Comissariado do Povo para
Assuntos Internos. É possível no romance observar, ou melhor, confirmar o
caráter personalista e tirano de Stálin.

Além de expor a complexidade humana dos personagens, o livro nos apresenta
um retrato de época que torna possível o entendimento acerca de eventos
políticos que marcaram o século, e como certos acontecimentos podem levar
à outros, trágicos ou não. Mas seu grande mérito é a reflexão sobre uma geração,
que sem se dar conta naquele momento da história, teve sua alma aniquilada e
sua individualidade massacrada por uma utopia desvirtuada pelos donos do poder.



Guerra Civil Espanhola

O cenário político mundial naqueles tempos era bastante conturbado, o mundo
havia recém saído da primeira grande guerra e a Alemanha sofrera uma derrota
humilhante que a deixara com a economia em frangalhos, o que estava facilitando
a ascensão de Adolf Hitler. Hitler então fingia ser aliado dos comunistas, e Trotsky
via com preocupação a subida dele ao poder, sabia no que isto iria dar. Seus
temores se confirmaram quando mais tarde os comunistas alemães passaram
também a ser alvos da perseguição nazista. As democracias ocidentais pareciam
desprezar a capacidade retórica de Hitler e suas doentias ambições expansionistas,
e foram omissas ao não intervirem na ocupação da Tchecoslováquia pelos nazistas.
Mais tarde, Stálin e Hitler assinariam um pacto de não agressão com pontos
obscuros, acordo que Hitler descumpriu ao invadir de surpresa a União Soviética
em 1941. A Espanha passava por uma violenta guerra civil, fortemente dividida
entre forças nacionalistas e fascistas, e a base do governo republicano espanhol
representado pelos sindicatos, partidos de esquerda e partidários da democracia.
Naquela época, após a vitória da revolução bolchevique na Rússia, havia no mundo
uma rigorosa divisão entre direita e esquerda, mas em nenhum outro lugar como
na Espanha a própria esquerda estava tão fragmentada.

Depois da revolução de 1917, após a eliminação da autocracia e do governo
provisório, a Rússia passou por um período de reorganização social e política, mas
com a morte de Lênin em 1924 o partido Comunista ficou dividido, Josef Stálin
tornou-se o novo secretário-geral, havia conseguido com habilidade e artimanha
que Trotsky fosse expulso do Partido, e governaria a União soviética por 30 anos.
O principal ponto divergente entre eles era sobre os rumos que a revolução deveria
tomar a partir de então. Enquanto Trotsky tinha pretensões de estendê-la por toda
a Europa e criticava a burocracia stalinista, Stálin achava que deveria permanecer
limitada ao bloco de países soviéticos. Trotsky passara então de grande condutor
da revolução de 17 a um contra-revolucionário traidor, chegando ao extremo de
ser considerado um aliado dos fascistas. Um inimigo útil para o jogo político de
Stálin, enquanto fosse de seu interesse. O próprio Trotsky já no exílio, reconhece
que havia subestimado a capacidade de Stalin, um militante sem muita cultura e
um tanto grosseiro, de manipular o Partido. Trotsky em seus pensamentos lembra
que devia ter desconfiado daqueles “olhos de réptil”, que tão logo assumiu o poder
passou a reprimir, perseguir e eliminar seus oponentes ou quem ele assim
considerasse, fossem antigos militantes, intelectuais, artistas, ou, trabalhadores,
aqueles mesmos em nome de quem os comunistas diziam ter feito a revolução.
A esquerda em um mundo então dividido entre o fascismo de Hitler e seus aliados
e a suposta salvação pelo comunismo stalinista, estava desorientada, e uma parte
dela acreditava que o regime de governo de Stálin poderia ser o melhor para todos.
Mas na verdade o mundo estava entre dois regimes totalitários protagonizados por
dois tiranos manipuladores, responsáveis pelos maiores crimes contra a
humanidade no século 20, com a única diferença que no caso de Hitler o genocídio
ocorreu durante a guerra e Stálin o praticou em tempos de paz. Para Trotsky o
comunismo começava a cavar sua própria cova.





REVOLUÇÃO RUSSA

Trotsky em suas reflexões no exílio, em flashes de lucidez ou desânimo, chegou a
se perguntar se teria valido a pena tantas mortes, todo sofrimento e sacrifício até
mesmo de sua família em nome de uma causa, mas procurava manter o otimismo
com a firme convicção de que tinha um compromisso com a revolução. Mas
estava cada vez mais isolado.

Em paralelo à narrativa sobre a vida de Trotsky no exílio, surge o personagem de
Ramón Mercader, um jovem revolucionário espanhol cuja as ideias sofriam grande
influência da guerra civil em seu país onde participava como combatente, e de sua
mãe controladora, também uma revolucionária que acreditava que antes da
revolução comunista era preciso ganhar a guerra na Espanha, portanto não
podiam prescindir da ajuda de Moscou nem de servir ao regime de Stálin para o
que fosse necessário. Mercader influenciado por sua mãe, porém muito mais por
uma jovem revolucionária radical por quem era apaixonado e queria impressionar,
acabou aceitando, apesar de certa hesitação no início, uma importante missão que
ele ainda nem sabia qual era. Mas fora avisado que essa missão iria mudar
completamente sua vida. A fé cega em uma ideologia e em um líder que dela
se apropria, tenha essa ideologia a forma que tiver, pode transformar uma pessoa
e fazê-la cometer todo tipo de perversidades acreditando estar no caminho certo.

Fonte: http://lounge.obviousmag.org/