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terça-feira, 23 de dezembro de 2014






















RASTRO

Se rastro de pólvora
se areia escura
se cinza funerária
se a visão enganada

não sei.

Olho o chão.

Se poeira do tempo
se sujeira de tudo
se resquícios da festa
se cupim na madeira

apodrece,

e olho o chão.

Por isso mesmo,
apodrece.

E há
cheiro de pólvora
lama e areia
prenúncio de morte
e a cegueira
irreversível...

Como o correr do tempo
como o cansaço de tudo
como a ressaca da festa
como desgasta a madeira

irreversível!

Olho o chão.

Entonteço
e não tombo:
sei mais que antes.


Luciana Cavalcanti
Fonte: http://poesiapouca.blogspot.com.br/

quinta-feira, 1 de maio de 2014
















Cerquemos,
eu e tu,
de todos os sóis
a minha e a tua pele.
Abandonemos à luz
e ao excesso,
à sede e à cor,
a minha e a tua pele.
Até que queime
cerquemo-nos,
eu e tu, de todos os sóis!
Até que arda
e inflame,
cerquemo-nos de nós!
Há um território
inexplorado
em nossos corpos.
E é ali,
onde possível seria
um Encontro.
Fôssemos eu e tu,
astros, a isto
chamaríamos conjunção...
No entanto,
somos terra, eu e tu,
se vê na pele, em cor,
calor.
Somos terra,
eu e tu,
com a possibilidade
de expedições
até
ali
onde há
um território óbvio,
próximo e vazio,
porque distante de viajantes ociosos
e porque ausente de atrativos fáceis,
Ali,
no limite
onde encontram-se
a minha e a tua pele,
corporifica-se a alma,
pois há um território
onde nunca,
amigo, nunca anoitece.
Por isso,
podemos colher todos
os sóis.
Manhã após manhã,
noite após noite
e queimar...
Queimar,
juntas,
as nossas peles
até que sejamos diversos,
eu e tu,
daquilo que, em nós,
não nos encontra.


[ provisoriamente sem título... Nem parece que é Outono, e chove! ] 
luciana.cavalcanti. maio.2014.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Preces ao Futuro - Luciana Cavalcanti



















Para o meu avô

Nunca nos cansemos de dizer
das coisas mais belas e boas:
fruta colhida no quintal,
entardecer olhando o céu,
prosear de compadres na calçada,
novena e procissão
no interior. Gente simples
falando com Deus!

Nunca nos cansemos de dizer
dos amores mais fundos e certos:
cabelos brancos,
riso franco, voz cansada
carregando tanta ternura
que parece até que o tempo
multiplica a força do amor em mil,
cada dia...

Nunca nos cansemos de ser
como sonhamos ser quando crianças,
sábios e grandes
porque sabedores das coisas,
conhecedores do Mundo,
amigo das gentes, desde as influentes
às mais simples. E, todas, importantes!

Nunca nos cansemos de ter,
como mirante para olhar o Mundo,
uma despretensiosa cadeira na calçada
e a disposição de conversar e aprender.

Nunca nos cansemos de trabalho e riso,
de abençoar crianças,
de rir-se das brincadeiras desta meninada.

Nunca nos cansemos de sermos a força
do Amor com que asfaltamos nossa estrada...!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Vocação de Ícaro - Luciana Cavalcanti





















Este caminhar sem passos,

tão longe,

muito além, me levará...

Certeza de poder chegar

e o aprendizado

cotidiano das rotas...

Com curiosidade e precisão

avançar na invenção 

de caminhos novos...

Este caminhar sem passos

e o exílio das alegrias mais simples

dizem algo sobre a Liberdade:

olhar, no pés, pulsar o desejo,

saber que passos traduzem sonhos

e, então, inventar asas firmes...

já que tanto e sempre arde o sol!




Recife, Várzea do Capibaribe, 13 de Março de 2010.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013


















Desejos de Janeiro - Para um Ano Bom - Luciana Amâncio



Saiba um amor que te sinta,
mergulhe por sede da pele,
delire em canção que não minta...
E feche os olhos,
e abra o peito,
encontre o mar.

Encontre o caminho de casa,
da casa invisível,
onde morarão teus sonhos,
onde moras já (sem saber).
Queira o amor,
dilate o querer,
dilate os dias,
comendo as horas sem pressa,
como fruta boa em dia de mar.

Saiba saber do desejo,
não se esquive (nunca!) ao bom do beijo
- nem se furte ao beijo roubado!
Sinta o amor do cuidado,
saiba das harmonias do silêncio
e cante. E dance. E seja...

Feche bem os olhos, se veja.
Ajuda, no escuro, ao parto
da Luz. Ilumina o olho cego das ruas,
desengaveta os poemas,
mostra a cara,
assume o sonho,
desnuda a alma...

E o mais certo de ti,
desnuda também, com calma,
porque em cada pele dorme
um bocado atrevido de luz.

Guarda a lua que vês,
três pedaços de crepúsculo
e dois de aurora,
para trazer nos olhos
à emergência do amor amado.

Não peça nada dos dias,
antes, desperta em cada um
a vontade mais doida e boa
de te fazer sempre mais
feliz, feliz...

E seja
feliz com o que deseja
e desejante do que faz riso.
Criterioso sem ciso,
cuidadoso, sem medo...

Seja o mistério e seja claro,
seja aquele instante raro
em que se sabe beber o Eterno
nas bocas.

Seja uma verdade,
não última, nem primeira,
seja qualquer verdade verdadeira
de um amor que se quer para querer,
de um momento
que não te aceita sozinho,
de um viajante, embriagado de caminho,
que deseja parar e olhar o sol.

Veja a estrela que arde,
aprenda a ouvi-las,
aprenda a dividir com as estrelas
a força
de multiplicar teus desejos,
de trazer os desejos pela mão,
de trazer o desejo nas mãos,
e estender brilho,
transbordante,
dos olhos ao chão de casa.

Saiba, de cór,
saiba demais, de ouvido,
a canção que te traz sentido
a um novo amor...
Saiba por um cheiro,
imaginar cores e formas.
E saiba inventar melhor depois.
Ou saiba nada. Esqueça um pouco...
E – de sexto sentido e outros cinco -
intua, de intuição descarada,
boa vida
para dois

sábado, 9 de novembro de 2013

























Na falta de coração,
dê-me um comprimido pra dor
ou a mão.

Pague uma cerveja,
esqueça um livro comigo,
não diga que é meu amigo.

Na falta de solução,
dê-me uma passagem e um mapa,
uma dose dupla de vodka barata
e o último trago deste cigarro.

Você não fuma. Nem eu.
Você não enxerga nem eu,
hoje, que é tarde, mas já tudo
é breu.

Na falta de um coração,
dê-me um cartão
do escritório de seu novo emprego,
uma pista dos olhos de seu novo apego,
me deixe saber a quem cabe
o choro que você não me autorizou
para o dia,
inevitável dia,
em que você vai embora...

Sem deixar na cidade
nem traço de si,
sem olhar com maldade
o sangue pisado,
sem pensar nos verbos
ou conjugá-los passados.

Na falta de tudo,
me deixe um argumento como escudo
e a lembrança entre viva e embaçada
do dissenso de perder
o jogo com a carta marcada

Ou pelo menos,
me deixe um esquecimento:
no quarto, uma meia,
um botão de sua camisa,
lápis grafite,
papel rabiscado,
o olhar perdido...
tua vida.



Luciana Amâncio