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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015























A MÃO DESMASCARADA

I
Uma noite para levar
um outro sol.
II
Conhece acaso o cego
a doçura primeira
de ser noite total?
III
"Um sol está em nós...dizia um
sábio. ..O amanhecer o ignora e, no entanto,
fez, da minha vida, perpétuo amanhecer."
IV
"Não há tampouco...dizia, ainda, o
sábio tranparência que, uma vez, não tenha
sido desmascarada."


Edmond Jabès
Tradução: Mário Laranjeira



























A CANÇÃO DO ESTRANGEIRO

Estou à procura
de um homem que não conheço,
que nunca foi tão eu mesmo
quanto desde que comecei a procurá-lo.
Teria ele meus olhos, minhas mãos
e todos esses pensamentos semelhantes
aos destroços deste tempo?
Estação de mil naufrágios,
o mar deixa de ser mar,
para tornar água gelada dos túmulos.
Mas, mais longe, quem sabe mais longe?
Uma menina canta a contragosto,
enquanto a noite reina sobre as árvores,
pastora em meio a seus carneiros.
Venham arrebatar do grão de sal a sede
que nenhuma bebida poderá mitigar.
Com as pedras, um mundo se devora
para ser, como eu, de parte alguma. 

Edmond Jabès

Tradução: Caio Meira

domingo, 13 de dezembro de 2015






















Deixei uma terra que não era a minha
por outra à qual também não pertenço.
Refugiei-me num vocábulo de nanquim,
e tenho o livro como espaço;
palavra de lugar nenhum, obscura fala do
deserto.
Não me cobri durante a noite.
Nem mesmo tentei me proteger do sol.
Andei nu.
De onde eu vinha, não fazia mais sentido;
Aonde eu ia não incomodava ninguém.
Vento, digo-lhes, vento.
E um pouco de areia no vento!

Edmond Jabès
(tradução: Caio Meira)














A CANÇÃO DO ESTRANGEIRO

Estou à procura
de um homem que não conheço,
que nunca foi tão eu mesmo
quanto desde que comecei a procurá-lo.
Teria ele meus olhos, minhas mãos
e todos esses pensamentos semelhantes
aos destroços deste tempo?
Estação de mil naufrágios,
o mar deixa de ser mar,
para tornar água gelada dos túmulos.
Mas, mais longe, quem sabe mais longe?
Uma menina canta a contragosto,
enquanto a noite reina sobre as árvores,
pastora em meio a seus carneiros.
Venham arrebatar do grão de sal a sede
que nenhuma bebida poderá mitigar.
Com as pedras, um mundo se devora
para ser, como eu, de parte alguma. 

Edmond Jabès
(tradução: Caio Meira)














NÃO SE PODE FALAR DO DESERTO...
(fragmento)

Não se pode falar do deserto como de uma
paisagem, pois ele é, apesar de sua variedade,
ausência de paisagem.

Essa ausência concede a ele sua realidade.

Não se pode falar do deserto como de um
lugar; pois ele é, também, um não lugar; o não-
lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar.

Não se pode pretender que o deserto seja uma
distância, porque ele é, ao mesmo tempo, real
distância e não-distância absoluta por causa
de sua ausência de marcas. Ele tem, como
limites, os quatro horizontes, sendo o que os
liga e os separa. Ele é sua própria separação
onde ele se torna lugar aberto; abertura do
lugar.

Não se pode pretender que o deserto seja o
vazio, o nada. Não se pode, tampouco,
pretender que ele seja o término, uma vez que
ele é, igualmente, o começo.

Edmond Jabès
(tradução: Caio Meira)



















NOITES DE CONCRETO OU
PALAVRAS ESTRANGEIRAS
(fragmento)

Eu me curvo sobre a palavra de finas escamas
No mar a palavra atordoa
Ela foge por entre os dedos do curioso. Ela vigia o anzol
O pescador é o intruso o monstro
Levanto meus olhos para a palavra de belas plumas
No espaço ela está por um fio por um espanto
Ela vigia o caçador a tempestade O fuzil como a chuva tem pupilas que matam
Capturo a palavra desprevenida
Ela tem um porto de ilha
pernas secretas de areia
um torso de vela
Tem olhos de gaivota
e grandes mãos vazias
onde se refugia o mundo
Segui a palavra por tantos caminhos
Ela se deteve uma vez para me sorrir
Ela não tinha cabeça
nem nuca
Não tinha braços
nem pernas
e minha boca surpresa
modulava seu nome

Edmond Jabès

(tradução: Mário Laranjeira)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015




















TERRENO VAGO...

Terreno vago, página obsedada.

Uma morada é uma longa insônia
No caminho encapuzado das minas.

Os meus dias são dias de raízes,
São jugo de amor celebrado.

O céu está sempre por atravessar e
O terraço por nutrir de noites novas.

De meu vagar o luto forma
Enclave no clarão opaco das paredes.

A terra embebe-se em
Vãs visões de viagem.

Edmond Jabès

(tradução: Mário Laranjeira)




















CANÇÃO PARA UMA NOITE DE LUAR

Tu deslocas as ruas.
A cidade é um labirinto.
Sempre acabo em tua rua.

Tu mudas de nome.
Os dias são meus degraus.
Tua janela é tão alta.

Perco-te de vista.
À tua porta, um ladrão
ataca a fechadura.

Circundas meus sonhos.
Escapas à terra,
Ao inverno, às lágrimas.

Edmond Jabès

(tradução: Mário Laranjeira)