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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Amor - Vladimir Maiakovski


[Paisagens+-+09.jpg]




















Talvez quem sabe um dia,
Por uma alameda do zoológico,
Ela também chegará.
Ela, que também amava os animais,
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa.
Ela é tão bonita,
Que na certa eles a ressuscitarão.
O século XXX vencerá.
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias.
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos
Amar na vida.
Com o estelar das noites
Inumeráveis,
Ressuscita-me,
Ainda que mais não seja,
Porque sou poeta
E ansiava o futuro.
Ressuscita-me,
Lutando contra as misérias
Do cotidiano,
Ressuscita-me por isso!
Ressuscita-me,
Quero acabar de viver
O que me cabe,
A minha vida,
Para que não mais existam
Amores servis.
Ressuscita-me,
Para que ninguém mais tenha
Que sacrificar-se
Por uma casa, um buraco.
Ressuscita-me,
Para que a partir de hoje,
a família se transforme.
E o pai, seja pelo menos
O Universo.
E a mãe, seja no mínimo
A Terra...

sexta-feira, 18 de abril de 2014




Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.


Vladimir Maiakovski

quarta-feira, 26 de março de 2014

Fragmentos - Vladimir Maiakóvski




1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso
2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo
5
Sei o pulso das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.

(Trad. Augusto de Campos)