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Mostrando postagens com marcador Aldo Lins. Mostrar todas as postagens
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domingo, 6 de março de 2022


 UM OLHAR, UMA EXPRESSÃO

Á Isaac vieira
Buscando sempre mais luz
Numa lagoa azul ou em Alagoa Grande
Vejo os pincéis nas festas ou nas feiras
Invocando fatos correntes ou lendas.
Uma dançarina aleijada, alijada
Na calçada amarga de sua tapera,
Também vejo um negro desatando os nós
Dos barcos de luxo atracados no cais.
Vejo na grandeza de suas telas
Sidney Pottier e Brigitte Bardot.
A lágrima da filha em Pelé negar o gol
E o sorriso de Cristo na cruz.
Escuto Beethoven desenrolando as notas
Vejo Tiradentes tão patriota,
Sinto a seca, a chuva e o lamaçal
Oriundas da profundeza do caos.
Nas veias o seu vocabulário plástico
Vozes de cores tão bem definidas.
Chama o olhar perdido de quem passa
Ao expor um pedinte enxotado do chão.
Aldo Lins da Paraíba.

sábado, 2 de abril de 2016
















IDENTIDADE

Aliado do céu por ser azul
Tento caminhar sóbrio
Mesmo sentindo o chacal
Nos meus sensíveis calcanhares.

Tenho cinquenta sonhos publicados
Outros tantos arquivados
Sou um cavaleiro de aquário
Pertenço a uma estrela imaginária.

Entretanto, as minhas asas rastreadas
Não alcançaram o cume das montanhas
O cheiro da dor cinza pela estrada
Revela a tristeza de minha alma.

Mas sobre tudo ou sobre nada
Há uma calçada onde passeia o rouxinol
E uma varanda abandonada
Onde moro eu e o sabiá.

Aldo Lins













CANTO SELVAGEM

Seria jocoso o canto do juriti
Se a jaguatirica não judiasse da jacutinga
Vendo joviais jandaias num juazeiro
E a jerivá estendo a esteira para o jabuti.

Jenipapos ao lado de um jequitibá
A jurema brotando um cheiro de jasmim
Jararacas mergulhando com os jacarés
E a bengala de junco com o verniz do jatobá.

Uma morena jambo junto do jacarandá
Tornaria um jazigo numa jazida
Se um japonês numa jangada
Não jurasse levar tudo isto pra lá.


Aldo Lins

quinta-feira, 24 de março de 2016
















SOB AS ASAS DA ÁGUIA

A África negra
Desfila com seus balaios
Em uma cidade qualquer
Desta América miserável.

Uma mulher sorri
Vendendo tapioca e negobom
No quintal das oficinas
As crianças perdem o frescor

A cidade semana acordada
Adormece aos domingos,
Na madrugada suja
Os solitários usam Ferrari
Os solidários, os pés no chão

Na outra margem da rua
Os anjos perseguem os bêbados
Com seus canivetes afiados
A linda cidade
Transforma-se num feroz animal

A pele escamada e cinza dos becos
Os vêem passar sombrios
Os luminosos perdem as cores

Das janelas dos sobrados
As mães com os olhos marejados
Sem favônios ou arpejos
Esperam os filhos,
Uma espera em vão.


Aldo Lins.

















PEGADAS NOTURNAS

Eu ando pelas ruas
Em busca de um contato
Mesmo que seja breve
Mesmo que seja leve
Mas que com ele eu possa voar.

Eu ando pelos bares
Como um Beduíno
Em busca de água no deserto
Talvez o incerto
Possa então me acompanhar.

Eu ando pelo quarto
Meditando por horas cruas
O rosto da pessoa nomeada
Fecho a porta, apago a luz
E continuo encompridando espirais.

Aldo Lins

terça-feira, 8 de março de 2016

MESA DE BAR, poema coletivo feito a dezesseis mãos

















Mesa de bar retarda a morte
Desanima qualquer suicida
Recria novas viagens, reinventa a vida.
Acende novos olhares, perde-se o medo
Instala sem decreto a paz
E faz mais, cria paixões.
Ressuscita a longínqua infância
Traz ao olhar o primeiro beijo
Aquela velha e eterna canção.
Lugar de relatos de experiências,
convivências, carências e revelações
E outros retalhos de emoções.
As cadeiras lembram bancos de escolas
Alguém passa e pede esmolas
Lembra a vida, o acaso e a ocasião.
O álcool em colunas Romanas
Impede o avanço inimigo
Dos Bárbaros: suicídio ou depressão.
Aldo Lins, Itárcio Ferreira, Adriel Evangelista, Chico,
Rita, Arakem, João e Chicão.


Celebram um poema de muitas mãos...

Poema realizado Sexta Feira, dia 04 de Marco de 2016,
no Bar de Leleu, no Mercado da Boa Vista
Visitem o face do Sarau da Boa Vista

segunda-feira, 2 de novembro de 2015




















EVANGELHO DE AQUÁRIUS

Vai
Caminha sobre as águas
Transforma as tuas mágoas
Em gaivotas azuis sobre o mar
Joga as cinzas, todas as cinzas
Nos túmulos dos verdugos
Que hoje nasceu a paz.

Prende a tua dor entre as ruínas
Ergue duas colunas de vidro entre as colinas
Que nas catedrais em que se enfraquecem os sonhos
Há fortalezas de homens e mulheres oásis.

Deixa que esta nuvem de açucenas
Conduza este corsário que voa
Como galo de rinha em arco e flecha
Porque na fragrância flagrante de teus olhos
Há uma sombra que assombra as minhas pedras.

Levanta
Sob os acordes das trombetas
E na bênção dos seios maternos
Rasga o véu que esconde os teus desejos
Porque as mãos que seguram o medo
Não exorcizarão jamais esta calma assassina.

Aldo Lins.



























BANDEIRA DA AURORA

Contemplo a arquitetura da Aurora
Recreio dos pássaros da Boa Vista
Do seu cais palco sempre dourado
E de museus falando as suas horas.

Aurora musa dos sonhos de Bandeira
Mãe de tantos andarilhos girassóis
Plataforma de olhares impassíveis
Transmutados pelo pão de cada dia.

Aurora monumento à liberdade
Descortina o Palácio das Princesas
E acolhe os eternos namorados
Embriagados com a lua do seu rio.

Quisera eu aqui ter vivido
A aurora azul da minha vida
Nesta via de perfeita geometria
Entre a fumaça e névoa da cidade.

Aldo Lins.



























ESTIGMA

"A minha alma é um grito.
E toda a minha obra é um comentário
sobre esse grito."
(Nikos Kazantzakis)

Acordei chorando
Jorrava de dentro de mim
Toda uma denúncia de tudo aquilo que sou.

Vagabundo, maluco, mendigo, moribundo,
anarquista, amante, poeta e sonhador.

Não me conheço,
Aliás, só por fotografia
Não sou lavoura nem edifício.
Sou um homem que passou fome
Escarrou sangue
E foi preso como anarquista.

Também não sei mais sorrir
A minha pele hoje
É uma tatuagem cheia de escamas.

Até o meu canário fugiu da garganta
Deixando minha alma de vidro
Perdida pelos escombros
Útero da solidão.

Meus trinta anos
O que direi a eles
Quando reinar o eclipse da despedida
Haverei de doar meus olhos
Para alguém poder te ver.

Pois quem sabe um dia
Eu, hóspede da utopia
Assustado com a sombra
Dos meus próprios sonhos
Seja encontrado sem vida
Sentado num cabaré vazio.


Aldo Lins
Pintura: Edmund Munch (O Grito)



























SOLUÇOS DO DERRADEIRO CANTO

Sonhei voando entre catedrais e cemitérios
Pó cinza e a alma pomba azul no céu
Velas acessas sobre o mármore negro
Sentinelas agora sem forma e sem cor.

Rastejam vermes fiéis companheiros
Famintos e sequiosos de uma carne fria
Na parede uma moldura desbotada
Onde já se vê gasta a juventude.

Um terno escuro para a solenidade
A posse nos termos do obituário,
E na gaveta murmura o triste diário.

A luz então se fragmenta no espaço
E o tempo que assistia a tudo agitado
Agora dorme silenciosamente sem asas.


Aldo Lins.

Estigma - Aldo Lins