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Mostrando postagens com marcador Alberto da Cunha Melo. Mostrar todas as postagens
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quinta-feira, 29 de agosto de 2019


















Quando a pátria
não é mais tangível
como a mudança
das folhas nas árvores
e das ânsias nos homens,
em nome dela
as árvores e os homens
começam a tombar.

ALBERTO DA CUNHA MELO
Poesia completa. Record, 2017.

sexta-feira, 25 de março de 2016
















COLEGIAIS

São todos eles imortais
e onde estiverem lhes transborda
voraz a vida, com seus volts,
sua guitarra de mil cordas;

tanta energia é uma cegueira,
manhã sem fim, a vida inteira,

até que a tarde se anuncia
ao primeiro tremor das mãos,
até que o corpo não sacia

mais o outro corpo e a noite eleva
sua alta parede de treva.

Alberto da Cunha Melo
De Meditação sob os Lajedos (2002)











ORGASMO

Todo corpo, em seu esplendor,
divide em duas esta vida,
mas este êxtase existe mesmo
para ocultar uma descida

da carne, no único momento
em que do cosmo é instrumento;

truque do eterno é todo amor:
toca por baixo o fogo alto
que aquece o sonho ao sol se pôr,

porque logo devolve aos dois
o nada de antes e depois.

Alberto da Cunha Melo




















CANTO DOS EMIGRANTES

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos             
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico, 
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

Alberto da Cunha Melo

sexta-feira, 13 de novembro de 2015




























SINAIS

Ainda não acredito
no teu corpo tão perto,
os teus cabelos cobrindo
meus olhos com medo
de te assumir, de te perder;
ainda não acredito
na tua voz vazada
em vento leve
de arvoredo distante;
ainda não acredito
que chegaste; depois
de passar tanto tempo
esquecido que havia,
atrás das folhagens do mundo,
uma possibilidade de ti.

ALBERTO DA CUNHA MELO
Do livro: "Clau. Poemas"

terça-feira, 20 de outubro de 2015






















AVISO PRÉVIO

Por motivos inconfessáveis,
antes de ajustar o papel
na máquina, o mundo me chama
(aos gritos) mas vou devagar.
Teus escravos têm outro jeito
de caminhar sobre o tapete,
e se curvam de outra maneira
às tuas novas injunções.
Não participo dessa urgência
com que te vestes para o fim,
e não me deves mais a casa
alta, diante dos nascentes.
Preciso apenas de um espaço
onde gravar uma palavra:
só não a gravo no teu corpo
porque ele dura muito pouco.
Ó terra, terra, que serias
sem teus poetas pequeninos,
que bebem tanto e cavam tantas
fontes na tua superfície?

Alberto da Cunha Melo

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015




























INSCRIÇÕES AO VIVO
Escreveu sua alegria assim: "outubro",
e ninguém entendeu.
Ela era simples: ao arroz quente
deu a forma de suas mãos
e o amado achou-o doce, e o amado nunca o esqueceu.
De pequenos/e constantes gestos/
é que se faz
a grande saudação.
Foi assim que as palmeiras
e as crianças
conseguiram crescer
e suportar-nos.
Alberto da Cunha Melo

domingo, 14 de dezembro de 2014

Relógio de Ponto - Alberto da Cunha Melo






















Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
















O grande trabalho é do amor
sem bronzes, sem assinaturas,
no ar do espaço, na hora do tempo,
pólen de Deus nas criaturas,

a palavra quase sem eco
a injetar humos no deserto,
mãos de franciscos, de terezas,

que repartem, ocultamente,
suas migalhas sob as mesas,

ou energia sem fronteiras,
que acende todas as estrelas.


ALBERTO DA CUNHA MELO
No livro “Meditação sob os lajedos”. EDUFRN, 2002.
(Poema dedicado ao ergonomista Noberto Loureiro.
Imagem: arte de Cláudia Cordeiro)


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Casa Vazia - Alberto da Cunha Melo






















CASA VAZIA
Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,
para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,
uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,
ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.
Alberto da Cunha Melo
D

quinta-feira, 23 de outubro de 2014





















PATRIOTISMO A MEU MODO
Minha bandeira
é meu coração,
mas olho com amor
a pupila azul
da bandeira da pátria
procurando por mim;
minha pátria
é meu coração;
mas olho com pena
as pálpebras verdes
da bandeira da pátria
se fechando por mim.
Alberto da Cunha Melo

sábado, 26 de abril de 2014



















Tocam-me de repente o rosto
as lufadas de luz. Eu nada
vejo mas estou incluído
no tempo, na manhã que chega.
Voltaste como um grande amigo
e por trás de mim colocaste
as tuas mãos sobre os meus olhos,
mas não foste reconhecido.
Pouco depois, quando as palavras
fluíram fáceis, novamente,
eu compreendi que estavas perto
e meu poema foi crescendo.
Ó vento conterrâneo! ó nuvem!
passai depressa para os outros
poetas, mais necessitados
e mais sozinhos do que eu.
Põe-se a meu lado quem defende
da malcriada ventania
o meu poema crepitando
como chama em cima da mesa.

Alberto da Cunha Melo
ORAÇÃO PELO POEMA - VI
Foto: © Esmar Abdul5 / After

quinta-feira, 27 de março de 2014

Alberto da Cunha Melo

























O céu parece revestido
de uma camada de cimento:
deixo as marquises porque sei
que esta chuva não passará.
Se esperasse um tempo de paz,
nem meu túmulo construiria.
Começo e recomeço a casa
de papelão em pleno inverno.
Um plano, um programa de ação
debaixo de uma árvore em prantos,
e voltar à primeira página
branca e ferida pela pressa.
A poesia já não seduz
a quem mais forte ultrapassou-a,
libertando um pouco de vida
e luz, da corrente de estrelas.
Toda renúncia nos convida
a recomeçar outra busca,
porque algo a inocência perdeu
no chão, para arrastar-se assim.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Alberto da Cunha Melo




Cai um silêncio de ondas longas
e sucessivas como a chuva.
E que silêncio será esse
que cai assim antes de mim?
Fauna marinha, gestos lentos
de anjos calados golpeando
um polvo em fúria que me espera
(sob os sonhos). Há quanto tempo?
Poucos amigos, tudo salvo,
ainda temos nossas raivas
e uma esperança ilimitada
nos setembros. Mas, até quando?
Caem livros silenciosos
das prateleiras: baixa a luz
morna e abundante sobre as capas.
Que foi feito de tanta noite?
A esperança nova se agarra
entre as barreiras e as ossadas
de nossos morros. E por que
morremos antes de salvá-la?

quinta-feira, 20 de março de 2014

Alberto da Cunha Melo.

























Cai um silêncio de ondas longas
e sucessivas como a chuva.
E que silêncio será esse
que cai assim antes de mim?
Fauna marinha, gestos lentos
de anjos calados golpeando
um polvo em fúria que me espera
(sob os sonhos). Há quanto tempo?
Poucos amigos, tudo salvo,
ainda temos nossas raivas
e uma esperança ilimitada
nos setembros. Mas, até quando?
Caem livros silenciosos
das prateleiras: baixa a luz
morna e abundante sobre as capas.
Que foi feito de tanta noite?
A esperança nova se agarra
entre as barreiras e as ossadas
de nossos morros. E por que

morremos antes de salvá-la?

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Um Cartão de Visitas - Alberto da Cunha Melo.




Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho,
Moro bem longe, quem me alcança
Para sempre me alcançará.

Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.

Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.

É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.

Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem;
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Casa Vazia - Alberto da Cunha Melo




Poema nenhum, nunca mais
Será um acontecimento:
Escrevemos cada vez mais
Para um mundo cada vez menos,

para esse público de ermos,
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas,
seu deserto particular;

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

domingo, 10 de novembro de 2013

Relógio de Ponto - Alberto da Cunha Melo




Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.

sábado, 9 de novembro de 2013

Para os Mestres, com desrespeito - Alberto da Cunha Melo




Dizem que meu povo
é alegre e pacífico.
Eu digo que meu povo
é uma grande força insultada.
Dizem que meu povo
aprendeu com as argilas
e os bons senhores de engenho
a conhecer seu lugar.
Eu digo que meu povo
deve ser respeitado
como qualquer ânsia desconhecida
da natureza.
Dizem que meu povo
não sabe escovar-se
nem escolher seu destino.
Eu digo que meu povo
é uma pedra inflamada
rolando e crescendo
do interior para o mar.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013