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segunda-feira, 13 de julho de 2015




























Os funcionários não funcionam.
Os políticos falam mas não dizem.
Os votantes votam mas não escolhem.
Os meios de informação desinformam.
Os centros de ensino
ensinam a ignorar.
Os juízes condenam as vítimas.
Os militares estão em guerra
contra seus compatriotas.
Os policiais não combatem os crimes,
porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas,
os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas."
Eduardo Galeano (trecho do Livro dos Abraços)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Eduardo Galeano

























A função da arte/1 
 
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que 
descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas 
altas, esperando. 
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, 
depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a 
imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. 
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao 
pai: — Me ajuda a olhar! 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A Linguagem da Arte - Eduardo Galeano



















               



                           Pintura: Van Gogh



Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos
em Havana. Para deixar de ser pobre,
foi-se embora para Nova York.

Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina
de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma
câmera nas mãos, mas disseram a ele que era fácil:
- Você olha por aqui e aperta ali.
E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado
pouco quando escutou tiros e se meteu num
barbeiro e levantou a câmera e olhou
por aqui e apertou ali.

Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anas-
tasia, que estava fazendo a barba, e aquela
foi a primeira foto profissional de Chinolope.
Pagaram uma fortuna por ela.
A foto era uma façanha.
Chinolope tinha conseguido fotografar a morte.

A morte estava ali: 
não no morto, nem no matador. 
A morte estava na cara do barbeiro
que a viu.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013





Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa
casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me
beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.


Eduardo Galeano