"Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma." - Cora Coralina
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sexta-feira, 18 de abril de 2014
É urgente o amor
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"
Ah, os Relógios - Mário Quintana
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.
E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são…
em A Cor do Invisível
quarta-feira, 16 de abril de 2014
UNI-VERSO
E o verso
Se fez vida
E habitou entre nós,
Cheio de rimas ricas
e rimas pobres
Metonímias cansadas
Metáforas preocupantes...
Não usurpou ser igual ao poema
E esvaziou-se da crase
e do trema.
Interpretando-se a si mesmo
Cheio de graça e verdade,
Sabendo apenas uma coisa:
Em meio à diversidade
Somos todos uno!
Carlos Maia.
Carlos Maia.
terça-feira, 15 de abril de 2014
A Velhice Pede Desculpa - Cecília Meireles
Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.
Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.
Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.
Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.
Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.
In "Poemas" (1958)
A Natureza Mastigada - Lucas Lopes
Um caminho minado
Ruminada, proveitosa
A natureza observada
De um, dois, três lados
Enxergada e despercebida
A natureza evaporada
Dos repertórios de gente viva
A comunicação, a coragem
O bem estar orgânico
O natural, espontâneo
O inconsciente coletivo
O social, a invisibilidade
A expansividade, o transcendental
O ritmo do pulso
A ansiedade, o chão
Os santos se batem
A proteção é um círculo
Cheio de arestas, riscos
Pontos, luzes e sombras
Choros felizes
Risadas esquizofrênicas
Fugas intuitivas
O corpo fala, dita
A razão escolhe o amor
O inconsciente vira razão
Informação coletada
Das gavetas essenciais
Arte viva, criada da bagunça
das letras, das situações
da coleta desconstruída
dos experimentos, do grito
A natureza em alto som
Só floresta e calor
A corrente eletro sanguínea
Sentida, molhada
Subida e queda d’água
Micro partículas, fluídos
Todas do bem, cristalinas
A divina natureza
Agressiva e bem humorada
Quase bipolar, nesse sistema
Fluorescente, selvagem
Belo pelo encantamento dos encontros
Belo pelo canto das velas
Belo pelo caminho percorrido
Pela seiva, pelo sangue corrente
Pelo som das asas
A natureza mastigada
É a vida mais vivida que pensada
Ruminada, proveitosa
A natureza observada
De um, dois, três lados
Enxergada e despercebida
A natureza evaporada
Dos repertórios de gente viva
A comunicação, a coragem
O bem estar orgânico
O natural, espontâneo
O inconsciente coletivo
O social, a invisibilidade
A expansividade, o transcendental
O ritmo do pulso
A ansiedade, o chão
Os santos se batem
A proteção é um círculo
Cheio de arestas, riscos
Pontos, luzes e sombras
Choros felizes
Risadas esquizofrênicas
Fugas intuitivas
O corpo fala, dita
A razão escolhe o amor
O inconsciente vira razão
Informação coletada
Das gavetas essenciais
Arte viva, criada da bagunça
das letras, das situações
da coleta desconstruída
dos experimentos, do grito
A natureza em alto som
Só floresta e calor
A corrente eletro sanguínea
Sentida, molhada
Subida e queda d’água
Micro partículas, fluídos
Todas do bem, cristalinas
A divina natureza
Agressiva e bem humorada
Quase bipolar, nesse sistema
Fluorescente, selvagem
Belo pelo encantamento dos encontros
Belo pelo canto das velas
Belo pelo caminho percorrido
Pela seiva, pelo sangue corrente
Pelo som das asas
A natureza mastigada
É a vida mais vivida que pensada
Dias de Semana - Piotr Sommer
Amanhã é quinta-feira.
Se o mundo cumprir com suas obrigações,
depois de amanhã será sexta.
Se não, talvez mesmo domingo
e nunca ninguém saberá
onde se extraviou nossa vida.
O Grande Abraço - Sérgio Leandro
poeta França (in memorian)
porteira com a chave da mansão
celestial, sê meu Deus..."
Vai poeta, vai.
A canção não tarda,
A vida não se demora
E o grande abraço une o homem às estrelas.
Vai poeta, vai.
Para ser sempre
É preciso ir embora
Porque não nos faz grandes a matéria que treme ao frio,
Mas o pó que se une ao vento.
Vai poeta, vai.
Cumpre a profecia:
O grande abraço nos une à terra,
Somos todos deuses de cinzas
Lançados ao vento.
Vai poeta, vai.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Morada dos Poetas - Sérgio Leandro
Recife,
na língua dos deuses, morada dos poetas.
Recife,
Recife,
não quero falar de tuas pontes,
tuas revoluções libertárias,
tuas noites de silêncios abissais no bairro antigo...
me bastaria Bandeira da União,
me bastaria a eterna do rio
que atravessa o teu corpo
e que os homens não conseguiram calar.
A exposição das máquinas é a alma tecnológica,
hoje dádiva divina da vaidade humana.
Os valores alienados quantificam e qualificam
o abastado indivíduo que busca
o sentido para a vida.
A comunicação encontra-se perdida no vazio existencial
e realiza-se na satisfação do aparato nas novas tecnologias.
Procura-se o diálogo, o brilho dos olhos,
o sorriso sincero e o abraço.
Hoje produtos perdidos
no grande tabuleiro da fragmentação
humana!
Armando Guimarães
27/09/11
Lisboa - Tomas Tranströmer
No bairro de Alfama os elétricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões
Acenavam através das grades
Gritavam que lhes tirassem o retrato
Mas aqui, disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio
aqui estão políticos. Vi a fachada, a fachada, a fachada e lá no cimo um homem à janela
tinha um óculo e olhava para o mar
Roupa branca no azul. Os muros quentes
As moscas liam cartas microscópicas
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa
Será verdade ou só um sonho meu?
Tomas Tranströmer - Prêmio Nobel de Literatura em 2.011.
Tomas Tranströmer - Prêmio Nobel de Literatura em 2.011.
domingo, 13 de abril de 2014
sábado, 12 de abril de 2014
ÍNDOLE
urgentemente
descansemos
descansemos
do ócio
impuro
e míope
impuro
e míope
da algazarra
do vazio
e do solitário pátio
do vazio
e do solitário pátio
das amarras
que nos impregnam
da totalidade
do superficial
e do inválido
que nos impregnam
da totalidade
do superficial
e do inválido
descansemos
do que nossas sombras
sussurram
do que nossas sombras
sussurram
de tudo
do quase nada
que nos leva
do quase nada
que nos leva
e quando
despertarmos
sejamos
o mergulho
que cada alma
cede.
despertarmos
sejamos
o mergulho
que cada alma
cede.
Carlos Gurgel
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Enos - Sérgio Leandro
Tudo que sou é poeira no vento,
Sou apenas solidão e desalento
Longe do círculo sagrado dos teus braços.
Sou as lágrimas acumuladas de todos os cansaços
E o sangue que à noite o pó revela...
Minha aquarela em pedaços te saúda nos portais que a tarde encerra...
Cantaria outro mundo se amasse,
Toda dor é um caminho entre abraços.
04/05/2009
terça-feira, 1 de abril de 2014
Silêncio - Octavio Paz
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
In "Liberdade sob Palavra"
Tradução de Luis Pignatelli
Tradução de Luis Pignatelli
segunda-feira, 31 de março de 2014
Aos Deuses - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
Têm prazer ou dores.
domingo, 30 de março de 2014
Por não estarem distraídos - Clarice Lispector
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
quinta-feira, 27 de março de 2014
Alberto da Cunha Melo
O céu parece revestido
de uma camada de cimento:
deixo as marquises porque sei
que esta chuva não passará.
Se esperasse um tempo de paz,
nem meu túmulo construiria.
Começo e recomeço a casa
de papelão em pleno inverno.
Um plano, um programa de ação
debaixo de uma árvore em prantos,
e voltar à primeira página
branca e ferida pela pressa.
A poesia já não seduz
a quem mais forte ultrapassou-a,
libertando um pouco de vida
e luz, da corrente de estrelas.
Toda renúncia nos convida
a recomeçar outra busca,
porque algo a inocência perdeu
no chão, para arrastar-se assim.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Alberto da Cunha Melo
Cai um silêncio de ondas longas
e sucessivas como a chuva.
E que silêncio será esse
que cai assim antes de mim?
Fauna marinha, gestos lentos
de anjos calados golpeando
um polvo em fúria que me espera
(sob os sonhos). Há quanto tempo?
Poucos amigos, tudo salvo,
ainda temos nossas raivas
e uma esperança ilimitada
nos setembros. Mas, até quando?
Caem livros silenciosos
das prateleiras: baixa a luz
morna e abundante sobre as capas.
Que foi feito de tanta noite?
A esperança nova se agarra
entre as barreiras e as ossadas
de nossos morros. E por que
morremos antes de salvá-la?
Fragmentos - Vladimir Maiakóvski
1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso
2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo
5
Sei o pulso das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
(Trad. Augusto de Campos)
Para ti - Walt Whitman
Desconhecido, se tu que passas e me encontras
quiseres a mim te dirigir,
por que não o farás?
E por que eu não deveria contigo dialogar?
terça-feira, 25 de março de 2014
A visão de um anjo de costas - Ângelo Monteiro
Não é por mero protesto
nossos cabelos nos ombros:
somos bem pouco terrestres,
somos mais venusianos.
Escondem asas secretas
estes cabelos que usamos:
como todos os estetas
as coisas prefiguramos.
De modo que as imagens
das vossas alegorias
são bem pouco, comparadas
com a nossa telepatia
e o nosso poder de usar
só as palavras supremas:
não somente as necessárias,
mas aquelas que o homem teme.
O resto comunicamos
por meio dos nossos olhos:
em nós, poços de energia,
em vós, poças de silêncio.
Nem contempleis nossos ombros:
cabelos vertiginosos
e tênues, como os abismos,
perturbarão vosso sono.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Discurso sobre o Vazio - Ângelo Monteiro
Dura necessidade
de invocar os objetos,
como se dependêssemos
deles para existir.
de invocar os objetos,
como se dependêssemos
deles para existir.
Como se o seu vazio
fosse menor que o nosso:
nós que usamos palavras
por medo do silêncio.
fosse menor que o nosso:
nós que usamos palavras
por medo do silêncio.
Cantigas de Fingimento VIII - Ângelo Monteiro
Escrevo como quem nada
sabe dizer, mas dizendo
a mão sinto arrebatada
para o que eu não compreendo:
Mesmo sem saber a estrada
não me entrego nem me rendo.
Quero dormir. Só o sono
me interessa e nada mais.
Em vão procuro abandono
para o meu corpo sem paz:
Mas meu invisível dono
minha vontade não faz.
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