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sábado, 11 de julho de 2015

5 Poemas de Erickson Luna





















3 X NÃO
Não creia em mim
Não há futuro
Não me deixo pra depois


SEM TIC-TAC
Mesmo um relógio parado
consta certo as horas
duas vezes ao dia


UMA PRESENÇA
Vez por outra uma presença
me confunde a solidão
menos espero
e muito mais me vejo só
Não ter do que ter saudade
me deprime e reanima
se me constrange
também não me tira a calma
Além da dor que me embriaga
a lucidez
resiste ao dia, a esta cidade
e a vocês

MARIPOSA
Pra eu poder
e só
andar nas ruas
fez-se em volta uma cidade
Para se dar
mais colorido à noite
pôs-se acima um luminoso
E pra que eu
me sinta bem enfim
nesta cidade
há-se em mim um cidadão
Portanto livre
como o que é em noite
e que enche as ruas
perseguindo luzes
acordando
ainda que em sonhos
íntegro
ainda que meio-homem
plenamente meio
mariposa

CANTO DE AMOR E LAMA I
Choveu
e há lama em Santo Amaro
nas ruas
nas casas
vós contornais
eu não
a mim a lama não suja
em mim há lama não suja
eu sou a lama das chuvas
que caem em Santo Amaro
Vosso Scotch
pode me sujar por dentro
cachaça não
vosso perfume
pode me sujar por fora
suor nunca
porque sou suor
a cachaça e a lama
das chuvas que caem
em Santo Amaro das Salinas
Erickson Luna, poeta recifense, falecido em 2007, foi um dos destacados Poetas Marginais, conhecido por seu romantismo marginal e palavras sábias. Teve alguns poemas publicados na Coletânea poética I – marginal Recife (2002) e em fanzines. Em 2004 lançou o livro ‘Do moço e do bêbado’ (2004).

Fonte: http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br/2013/11/5-poemas-de-erickson-luna-o-ultimo.html



















O livro sobre nada ("Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.")



É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.


Manoel de Barros

Fonte:http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br/

Secos e Molhados (1973) = Álbum Completo

quinta-feira, 9 de julho de 2015




























IREI
irei sim
mesmo
que eu esteja
no outro lado do Atlântico
mesmo que isso
me provoque
o maior pânico
mesmo
que torrencialmente
a chuva caia
e me impeça que eu saia
eu irei sim
mesmo
que a montanha onde estou
esteja sem luz
escura
e intransitável
por isso mesmo que irei
pois que esse sentimento
é bem maior
do que qualquer obstáculo
incondicionalmente
espetacularmente
trilhões de vezes maior
do que os pingos da chuva a me molhar
do que a escuridão e me cegar
do que o Atlântico a me parar
e quando ai chegar
te darei um buquê
de verbos
carícias de uma gramática rara
pétala da fome que inebria.
Cgurgel

Beco do Barato - Álbum Completo

As Estradas - Lula Côrtes




























RETRATO
lembra
de quando você
me pediu uma foto?
daquelas
onde a ribanceira do dia
vinha
sem nenhuma pressa?
como se o tempo
chamasse de esperança
os nossos sorrisos?
pois tá
foi aqui
nessa imensidão do simples
que me lembrei
em te lembrar
te levar
para o meio do silêncio
e se misturar com as fotos
que nos faziam
hóspedes dessa cancela
sem chaves
e sem relógio
hoje
ao ver o sol
me lembrei em te escrever
e revolver essas flores do tempo
vertidas de tantas sombras
e ensaios.
Cgurgel

Woodstock - Full Album






















Ama-me. É tempo ainda.
Interroga-me
E eu te direi
Que o nosso tempo é agora.
Hilda Hilst

Jorge Vercílo - DVD show completo

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Brother, brother - Carole King




HOJE

                               Graciela Wencelblat Wainbuch

Hoje vou derrubar as portas
arrancar os cadeados
abrir o coração da noite.
Quero desfazer os lamentos
do ar,
despregar as dores ancoradas
dar batalha ao desespero.
Hoje que tento descobrir uma
fenda, me senti fatal.
Hoje
decidi deixar meu corpo ser levado ao vento
viver nas pausas
renascer no gozo
persistir na insolência.