"Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma." - Cora Coralina
Translate
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
A bomba
A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio
A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
A bomba
mente e sorri sem dente
A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação
A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba
faz week-end na Semana Santa
A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos
interplanetários
A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose,
de verborréia
A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer
A bomba
continua a envenená-las no curso da vida
A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro,
cobalto e ferro além da comparsaria
A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
saboreia a morte com marshmallow
A bomba
arrota impostura e prosopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado
A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba
tem um clube fechadíssimo
A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris
A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos
de paz
A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger
velhos e criancinhas
A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer
A bomba
é câncer
A bomba
vai à Lua, assovia e volta
A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação
em cadeia
A bomba
está abusando da glória de ser bomba
A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba
o instante inefável
A bomba
fede
A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Com crisântemos entre as mãos,
manuseio ideias fixas
e pinto, de vermelho, todos os segredos
que guardo pouco à vontade.
Depois, ao comprido das horas,
escolho um lugar estratégico para esperar a alegria
e dou, ao coração, nomes contraditórios.
A passagem do tempo, traça em meus pés
um futuro peregrino.
Nenhum prodígio me está destinado.
Só a brisa, entrando pelo avesso dos sonhos,
infatigável e lenta, me deixa no olhar
a cor da lua nova.
Graça Pires
De Reino da lua, 2002
Fonte: http://amalia2112.blogspot.com.br/
sábado, 3 de janeiro de 2015
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
II
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu”
Não suspires por ontens…
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu”
Cecília Meireles
in Cânticos
in Cânticos
Fonte: Amália Catarina Wichter Grande
Blog: http://amalia2112.blogspot.com.br/
JOGANDO COM O TEMPO
O presente ameaça
o futuro não chega
o passado não passa
o futuro não chega
o passado não passa
o passado não passa
o futuro não chega
e o presente ameaça
o futuro não chega
e o presente ameaça
o passado trespassa
o futuro não chega
o presente escorraça.
o futuro não chega
o presente escorraça.
O tempo é trapaça?
tempo:
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.
Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha
Fonte: https://www.facebook.com/profile.php?id=100000271192139&fref=nf
Face: Amália Catarina Wichter Grande
In Sísifo desce a montanha
Fonte: https://www.facebook.com/profile.php?id=100000271192139&fref=nf
Face: Amália Catarina Wichter Grande
O Amor - Vladimir Maiakovski
![[Paisagens+-+09.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi0_51N3dXobKht1iJ3nZCBWgidcIZKQG_02qIqCghWAnYt0aof-063g9C7fhZPC3VgW5AxJdcogiAM3IgAocnfLIfkYxs7Njho50gXpVV7DRsWflnhZ0neUk8dOPI11H6lfSxIV6SFcn8J/s400/Paisagens+-+09.jpg)
Talvez quem sabe um dia,
Por uma alameda do zoológico,
Ela também chegará.
Ela, que também amava os animais,
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa.
Ela é tão bonita,
Que na certa eles a ressuscitarão.
O século XXX vencerá.
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias.
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos
Amar na vida.
Com o estelar das noites
Inumeráveis,
Ressuscita-me,
Ainda que mais não seja,
Porque sou poeta
E ansiava o futuro.
Ressuscita-me,
Lutando contra as misérias
Do cotidiano,
Ressuscita-me por isso!
Ressuscita-me,
Quero acabar de viver
O que me cabe,
A minha vida,
Para que não mais existam
Amores servis.
Ressuscita-me,
Para que ninguém mais tenha
Que sacrificar-se
Por uma casa, um buraco.
Ressuscita-me,
Para que a partir de hoje,
a família se transforme.
E o pai, seja pelo menos
O Universo.
E a mãe, seja no mínimo
A Terra...
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Canto de Amor e Lama I - Erickson Luna
Esse vídeo é da época em que eu bebia, deve ter uns dez anos.
INSCRIÇÕES AO VIVO
Escreveu sua alegria assim: "outubro",
e ninguém entendeu.
Ela era simples: ao arroz quente
deu a forma de suas mãos
e o amado achou-o doce, e o amado nunca o esqueceu.
De pequenos/e constantes gestos/
é que se faz
a grande saudação.
Foi assim que as palmeiras
e as crianças
conseguiram crescer
e suportar-nos.
e ninguém entendeu.
Ela era simples: ao arroz quente
deu a forma de suas mãos
e o amado achou-o doce, e o amado nunca o esqueceu.
De pequenos/e constantes gestos/
é que se faz
a grande saudação.
Foi assim que as palmeiras
e as crianças
conseguiram crescer
e suportar-nos.
Alberto da Cunha Melo
Assinar:
Postagens (Atom)