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domingo, 8 de novembro de 2015




















eu gostava de poder dizer
que entrei no teu corpo como um pássaro
espreitando através de invisíveis ruínas
e que o som da tua voz bastava
para me salvar

mas de anda serve inventar palavras
quando as palavras que inventamos
não passam de frágeis lugares de exílio
dos gestos inventados fora de horas
delimitando o espaço de tantas mortes prematuras
de que juramos ressuscitar um dia

- quando os deuses se lembrassem
de acordar ao nosso lado

Alice Vieira
"Dois Corpos Tombando na Água"
Lisboa: Caminho, 2007



















(...) talvez um dia quem sabe o destino
volte a ter novos contornos e nos olhe de frente
e ainda sobre tempo para reaprender a soletrar corretamente
todas as palavras que admitiam ter nascido
do teu corpo da tua voz do sabor da tua boca
tempo para povoar de novos sons os velhos discos de vinil
e sonhar com mundos à espera de serem salvos
pelas nossas palavras
tempo para nos olharmos e encontrarmos
sem remorsos
a maneira de nos perdermos de novo nos caminhos
que levam ao coração absoluto da terra
talvez um dia quem sabe eu volte
a faltar às aulas para esperar por ti.

Alice Vieira





















E chega um dia em que reconhecemos
finalmente
a injustiça das palavras -
exatamente as mesmas
para quem vai e para quem fica
um dia
em que não há mais passado para contar
nem mais futuro para viver
apenas uma velha cantiga a embalar
uma casa desaparecida
e este limbo ocasional
onde o corpo espera que anoiteça.

Alice Vieira

sábado, 7 de novembro de 2015





















Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade
mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo que parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda.

ALICE VIEIRA
in "O QUE DÓI ÀS AVES" (Caminho, 2009)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015























Esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia do jornais
e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone de debruça de um sexto andar
sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca
e que vais voltar
para
a
devolver.

Alice Vieira