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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Amy Winehouse






















Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!


Mário Quintana

Wish you were here - Pink Floyd

Memórias, Crônicas & Declarações de Amor (Álbum Completo) - Marisa Monte















Poema da gare de Astapovo


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
Sentou-se ...e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!


Mário Quintana

Clube da Esquina 1 - Milton Nascimento

Avohai - Zé Ramalho (Álbum Completo)

domingo, 28 de junho de 2015




















Espelho


Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...) 
Parece meu velho pai - que já morreu! (...)
Nosso olhar duro interroga:
"O que fizeste de mim?" Eu pai? Tu é que me invadiste.
Lentamente, ruga a ruga... Que importa!
Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra,
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!
Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste...


Mário Quintana

Chão de Giz - Zé Ramalho

Chão de Giz - Elba Ramalho

Exaltado 2 - Diante do Trono

Desmantelo Azul - Carlos Pena Filho




























Desmantelo Azul

Então pintei de azul os meus sapatos 
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.


Carlos Pena Filho






















Murmúrio


Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.


Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.


Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!


Cecília Meireles




















4º Motivo da rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Cecília Meireles


























A rua dos cataventos


Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Mário Quintana

sexta-feira, 26 de junho de 2015














Poesia, poesia,
Bato à porta
E não respondes.
Digo como Alphonsus:
Em que mares,
Em que céus tu te escondes?
Andei longe de mim mesmo,
Em ambientes fechados
E obscuros;
Negrumes, obuses
Sempre te esperei
Mas nunca te encontrei.
Magnólias, estrelas cadentes,
Vastidões, travessia...
Sê bem-vinda
Na volta ao lar, poesia!

Carlos Maia
27/06/15

Preparando o Salto - Siba






















INFECTO
me infectei
de palmas, colagens e estribilhos
me infectei
do céu, de ser réu
do fogo, do ar, corcel
me infectei
das barbatanas, disparos e da foz
de tudo que vem no após
me infectei de almas
purgatórios, suspensórios, algoz do espólio
me infectei
de ser tão canastra
o alvo, e do que não basta
me infectei
de pernilongos, ditongos e hiatos
da hóstia, das lanternas e dos boatos
e
sem delongas
me infectei de mim
entre o poço e o que
ainda teima: o fim.
Cgurgel

Tênis Velho - Lô Borges

Alucinaqção - Belchior

A Página do Relâmpago Elétrico - Beto Guedes

Sol de Primavera - Beto Guedes

Amor de Índio - Beto Guedes



















Os poemas
 

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mário Quintana
 

Fonte: QUINTANA, Mário. Esconderijos do tempo. Porto Alegre: L&PM,1980.



















Percalços da Posteridade

O mais irritante em nos transformarem um dia em estátuas é que a gente não pode coçar-se.

Mário Quintana

















Virgens Mortas

Quando uma virgem morre, uma estrela aparece,
Nova, no velho engaste azul do firmamento:
E a alma da que morreu, de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.

Ó vós, que no silêncio e no recolhimento
Do campo, conversais a sós, quando anoitece,
Cuidado! – o que dizeis, como um rumor de prece,
Vai sussurrar no céu, levado pelo vento…

Namorados, que andais, com a boca transbordando
De beijos, perturbando o campo sossegado
E o casto coração das flores inflamando,

- Piedade! elas vêem tudo entre as moitas escuras…
Piedade! esse impudor ofende o olhar gelado
Das que viveram sós, das que morreram puras!

Olavo Bilac

My Sweet Lord - George Harrisson (Tradução)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Se eu quiser falar com Deus - Gilberto Gil





















PAIRA À TONA DE ÁGUA

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta,
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...”

*Fernando Pessoa*
Em “Poesias”, Lisboa, Ed. Ática, 1942.
Fonte: http://amalia2112.blogspot.com.br/2015/06/paira-tona-de-agua.html


quarta-feira, 24 de junho de 2015






















SILENCIO
a se perder de vista
a calmaria que acorda
o gado
porteiras servem
para salvar os passos
de quem descansa
ao pé da árvore
o perfume desse lugar
se enrodilha de terços
e pistas
distantes
os pássaros
sobrevoam a enchente do rio
que sorri e se cala
e a terra
revirada
e tranquila
interpreta
uma leve canção.
Cgurgel

terça-feira, 23 de junho de 2015





















DE REPENTE

De repente, do bolso,
caiu-me o poema.
Um poema não escrito.
Que me lembrava um pássaro em vôo
para o azul mais inocente.
Um poema simples.
O poema mais puro.
Penoso era vê-lo assim,
pássaro branco, e cego,
sequioso de azul.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

segunda-feira, 22 de junho de 2015




Álvaro de Campos
 
Afinal
 
  Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.  
  Sentir tudo de todas as maneiras.  
  Sentir tudo excessivamente,  
  Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas  
  E toda a realidade é um excesso, uma violência,  
  Uma alucinação extraordinariamente nítida  
  Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,  
  O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas  
  Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.  
  
  Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,  
  Quanto mais personalidade eu tiver,  
  Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,  
  Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,  
  Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,  
  Estiver, sentir, viver, for,  
  Mais possuirei a existência total do universo,  
  Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.  
  Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,  
  Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,  
  E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.  
  
  Cada alma é uma escada para Deus,  
  Cada alma é um corredor-Universo para Deus,  
  Cada alma é um rio correndo por margens de Externo  
  Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.  
  
  Sursum corda!  Erguei as almas!  Toda a Matéria é Espírito,  
  
  Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos  
  Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho  
  E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!  
  Sursum corda!  Na noite acordo, o silêncio é grande,  
  As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam  
  
  Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos  
  Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.  
  Sursum corda!  Acordo na noite e sinto-me diverso.  
  Todo o Mundo com a sua forma visível do costume  
  Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,  
  
  Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.  
  
  Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço  
  Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!  
  Mãe verde e florida todos os anos recente,  
  Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,  
  Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis  
  Num rito anterior a todas as significações,  
  Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!  
  Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,  
  Grande voz acordando em cataratas e mares,  
  Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,  
  Em cio de vegetação e florescência rompendo  
  Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso  
  A tua própria vontade transtornadora e eterna!  
  Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,  
  Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,  
  Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,  
  Que perturba as próprias estações e confunde  
  Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!  
  
  Sursum corda!  Reparo para ti e todo eu sou um hino!  
  Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima  
  Volteia serpenteando, ficando como um anel  
  Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,  
  Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.  
  Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente  
  Meu coração a ti aberto!  
  Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,  
  Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,  
  Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,  
  
  Sou um monte confuso de forças cheias de infinito  
  Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,  
  A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une  
  E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim  
  Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,  
  Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira  
  Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,  
  Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.  
  
  Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.  
  Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,  
  No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo  
  Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos  
  Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.  
  
  Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,  
  Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo  
  De chamas explosivas buscando Deus e queimando  
  A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,  
  A minha inteligência limitadora e gelada.  
  
  Sou uma grande máquina movida por grandes correias  
  De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,  
  O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,  
  E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...  
  
  Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito  
  Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,  
  Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,  
  Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço  
  Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.  
  
  Dentro de mim estão presos e atados ao chao  
  Todos os movimentos que compõem o universo,  
  A fúria minuciosa e dos átomos,  
  A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,  
  A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,  
  
  A chuva com pedras atiradas de catapultas  
  De enormes exércitos de anões escondidos no céu.  
  
  Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio  
  De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.  
  Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,  
  Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,  
  Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,  
  Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,  
  Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,  
  Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,  
  Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

domingo, 21 de junho de 2015




Apontamento

Álvaro de Campos

  
 

       A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
       Caiu pela escada excessivamente abaixo.
       Caiu das mãos da criada descuidada.
       Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. 
       Asneira? Impossível? Sei lá!
       Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
       Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

       Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
       Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
       E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. 

       Não se zanguem com ela.
       São tolerantes com ela.
       O que era eu um vaso vazio? 

       Olham os cacos absurdamente conscientes,
       Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. 

       Olham e sorriem.
       Sorriem tolerantes à criada involuntária. 

       Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
       Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
       A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
       Um caco.
       E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.