Translate

domingo, 30 de agosto de 2015

Mariposas na Noite - Erickson Luna




























Hugh Selwyn Mauberly

(trecho)
Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

Ezra Pound
Fonte: http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br/






















Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.


Mário Quintana

sexta-feira, 28 de agosto de 2015
























CALMARIA

livre
é tudo que eu sei

sangrando tão nu
como um chocalho
que enche de mar
as redes por onde nadei

livre
é tudo que espera
como um anzol que sorri
ao ver sua presa
escapolir

livre
é tudo que se vê
como uma garoa
que vai e que tem
o sorriso de uma menina

livre
é tudo que sirva

como uma fumaça
de costas por cima

livre
é tudo que passa
entre a chuva
e a borrasca.

Cgurgel

Elton John - Joe Cocker - Sorry Seems To Be a Hardest Word




























FLORESTA
desapareça
mingue o horóscopo
por onde seus olhos passeiam
diga
para sua sombra
que as horas
são como tochas acesas
saiba
pois o vento não volta
que as portas que você abriu
não saberão reconhecer suas chaves
a cisterna
plena de chatos
recua
sustente
seus dedos toscos
impregnados
de valsas vadias
sobre seu chão
erga sua pá de mdf
e liberte entre portas
o azinhavre de um oi
e ao se for
olhe para trás
pois a loucura
maldita e profana
te faz companhia.
Cgurgel

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

TOP 30 BEST MOMENTS OF TALENT AND THE BIGGEST SURPRISE EVER

Janet Devlin Your Song ( X Factor )




















IDIOMA

tenho a vida
nos meus olhos
e coração

na ponta dos pés
e na palma da mão.

Cgurgel



























A uma passante

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz… e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

Charles Baudelaire
"As Flores do Mal" (Edição Bilíngue)
Tradução: Ivan Junqueira
Fonte: Magia da Poesia

terça-feira, 25 de agosto de 2015






















CLARINHO

Joguei todos os meus sonhos
medonhos
no mar
e agora espero novas ondas
com seios morenos
espuma do mar
saia branca das sereias
cansadas de amor
Areia,
palco de luz
espelho do céu
vem dormir comigo
neste quarto sem portas
Trincos de caracol
para enfeitar a lua
Hoje à noite
irei dormir no mar
Vou despertar os deuses
do amor
que foram náufragos
em meus sonhos medonhos
vou dormir no mar
Hoje vou ser
claramente
um negro.

Miró da Muribeca
"Quem descobriu o azul anil?"





















Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia 
Na esperança de um só dia.
Manuel Alegre
















Preterido,
Preferido,
Apenas uma letra
Me separa de você!

Michel Laroni

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Seleção das melhores hinos gospel - 2015























RASTRO

há o
vácuo

daqueles
que te lançam
por sobre
o arvoredo do silêncio
e espanto


a água
que te benze
e audaz
refaz o ventre
e a voz


a imensidão
do vazio

e da
crosta
como uma instância
que não se adia

e da floresta
entre partes
espalhando entre cores
as estradas

de uns
recantos de mim.

Cgurgel

Creedence Clearwater Revival - Greatest Hits Album





















Às vezes, sinto como a rosa
que serei um dia, como a asa
que serei um dia;
e envolve-me um perfume, alheio e meu,
meu e de rosa;
e um vaguear me prende, alheio e meu,
meu e de pássaro.

Juan Ramón Jimenez

domingo, 23 de agosto de 2015

Ray Charles - Full Concert - "1981"

Ray Charles & Elton John - Sorry Seems to Be the Hardest Word (2004)

Cores Vivas - Gilberto Gil

Eros e Pisquê - Fernando Pessoa























E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fonte: http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br/

Pai e Mãe - Gilberto Gil

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Terra, Vento, Caminho - Dércio Marques



















17 E, no primeiro dia da festa dos pães ázimos, chegaram os discípulos junto de Jesus, dizendo: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa?
18 E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos.
19 E os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara, e prepararam a páscoa.
20 E, chegada a tarde, assentou-se à mesa com os doze.
21 E, comendo eles, disse: Em verdade vos digo que um de vós me há de trair.
22 E eles, entristecendo-se muito, começaram cada um a dizer-lhe: Porventura sou eu, Senhor?
23 E ele, respondendo, disse: O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair.
24 Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido.
25 E, respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste.
26 E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo.
27 E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos;
28 Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados.
29 E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai.
(Mateus 25:17-29)
Arte: Salvador Dalí

The Beatles - While My Guitar Gently Weeps [Legendado] HD

Ooh Darling - The Beatles

domingo, 16 de agosto de 2015




























A janela do quarto,
na semiobscuridade,
bate repetidamente.
É o vento
trazendo lembranças
e fantasmas
das lonjuras do tempo.
Vento forte
quebrando a solidão
do bronze das estátuas,
esquecidas
nas praças desertas.
A cidade dorme
com suas feridas expostas.

Pedro Luso de Carvalho

Fonte: http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br/



















1 Os que confiam no SENHOR serão como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.
2 Assim como estão os montes à roda de Jerusalém, assim o Senhor está em volta do seu povo desde agora e para sempre.
3 Porque o cetro da impiedade não permanecerá sobre a sorte dos justos, para que o justo não estenda as suas mãos para a iniquidade.
4 Faze bem, ó Senhor, aos bons e aos que são retos de coração.
5 Quanto àqueles que se desviam para os seus caminhos tortuosos, levá-los-á o SENHOR com os que praticam a maldade; paz haverá sobre Israel.
(Salmo 125)


















Eu creio que muitas vezes, na maioria das vezes, as palavras não traduzem bem o que nós estamos pensando. Principalmente a palavra escrita. A entonação, a pausa, são fatores às vezes mais importantes do que o próprio signo ali, escrito num papel ou na web. Um olhar então, ah, um olhar então nem se fala! Quantas vezes eu me perdi navegando num olhar! Linguagem de alma para alma! Intraduzível em palavras!


       Por isso que o trabalho do poeta é muitas vezes tão árduo! É um garimpar de signos! Junto a outros signos! Mas quando achamos a pepita... Ah, quando achamos a pepita, o grande diamante azul, brincadeira... Tem poemas que valem toda uma vida!

Carlos Maia

John Lennon - Greatest Hits

John Lennon - Woman

sábado, 15 de agosto de 2015




















Um anjo vem todas as noites:
senta-se ao pé de mim, e passa
sobre meu coração a asa mansa,
como se fosse meu melhor amigo.
Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
é todo o amor que resta
entre ti e mim, e está comigo.

Lya Luft
















MOLDURA

colho
o que meu olho
desfruta
como um regador
aparo
o sol
que protege
raízes e chão
o que meu corpo
alimenta
é o desejo
de receber
sombra e briza
como uma árvore
que ampara
a pele e o suor
da natureza.

Cgurgel

O Dia da Criação - Vinicius de Moraes




























O DIA DA CRIAÇÃO

Rio de Janeiro , 1946

Macho e fêmea os criou. 
Bíblia:
 Gênese, 1, 27 


I

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
A vida vem em ondas, como o mar 
Os bondes andam em cima dos trilhos 
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar. 

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
Não há nada como o tempo para passar 
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo 
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal. 

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
Amanhã não gosta de ver ninguém bem 
Hoje é que é o dia do presente 
O dia é sábado. 

Impossível fugir a essa dura realidade 
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios 
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas 
Todos os maridos estão funcionando regularmente 
Todas as mulheres estão atentas 
Porque hoje é sábado. 


II

Neste momento há um casamento 
Porque hoje é sábado. 
Há um divórcio e um violamento 
Porque hoje é sábado. 
Há um homem rico que se mata 
Porque hoje é sábado. 
Há um incesto e uma regata 
Porque hoje é sábado. 
Há um espetáculo de gala 
Porque hoje é sábado. 
Há uma mulher que apanha e cala 
Porque hoje é sábado. 
Há um renovar-se de esperanças 
Porque hoje é sábado. 
Há uma profunda discordância 
Porque hoje é sábado. 
Há um sedutor que tomba morto 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande espírito de porco 
Porque hoje é sábado. 
Há uma mulher que vira homem 
Porque hoje é sábado. 
Há criancinhas que não comem 
Porque hoje é sábado. 
Há um piquenique de políticos 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande acréscimo de sífilis 
Porque hoje é sábado. 
Há um ariano e uma mulata 
Porque hoje é sábado. 
Há uma tensão inusitada 
Porque hoje é sábado. 
Há adolescências seminuas 
Porque hoje é sábado. 
Há um vampiro pelas ruas 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande aumento no consumo 
Porque hoje é sábado. 
Há um noivo louco de ciúmes 
Porque hoje é sábado. 
Há um garden-party na cadeia 
Porque hoje é sábado. 
Há uma impassível lua cheia 
Porque hoje é sábado. 
Há damas de todas as classes 
Porque hoje é sábado. 
Umas difíceis, outras fáceis 
Porque hoje é sábado. 
Há um beber e um dar sem conta 
Porque hoje é sábado.
 
Há uma infeliz que vai de tonta 
Porque hoje é sábado. 
Há um padre passeando à paisana 
Porque hoje é sábado. 
Há um frenesi de dar banana 
Porque hoje é sábado. 
Há a sensação angustiante 
Porque hoje é sábado. 
De uma mulher dentro de um homem 
Porque hoje é sábado. 
Há a comemoração fantástica 
Porque hoje é sábado. 
Da primeira cirurgia plástica 
Porque hoje é sábado. 
E dando os trâmites por findos 
Porque hoje é sábado. 
Há a perspectiva do domingo 
Porque hoje é sábado. 


III

Por todas essas razões deveria ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. 
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas 
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra 
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra 
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. 
Na verdade, o homem não era necessário 
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. 
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias 
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa 
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos 
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra. 
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes 
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia 
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo 
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia, 
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias 
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio 
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula. 
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos 
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas 
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade 
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo 
E para não ficar com as vastas mãos abanando 
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança 
Possivelmente, isto é, muito provavelmente 
Porque era sábado.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015


















Que a serpente fique à espreita
por entre a relva. Que a escritura
seja feita de palavras,
lentas e rápidas, afiadas
quando golpeiam, calmas quando esperam,
e que nunca adormeçam.
Reconciliar, pela metáfora,
as pessoas e as pedras.
Construir. (Não com idéias
mas com coisas) Inventar!
Minha flor é a saxífraga:
a que faz estalar a rocha.


William Carlos Williams, “A sort of a song”
























TESTAMENTO DE UM POETA

Abrigue para mim meu bem maior
É chegada minha despedida
Concederam meu desabrochar desta vida
Guarde para mim todas as terras por onde pisei
Os mares onde naveguei
O céu e a lua quando nem lembrávamos das duas
As estrelas que achei em teus olhos
A saudade desfalecida e satisfeita na areia
Minha luz que por vezes lhe faltava
Ah, amava ser clarão com que lhe irradiava
Nosso voo cerceado e ignorado pela vivacidade da paixão
Animosidade e inconformismo com o tempo
Alegria e tristeza
Pura proeza
Guarde para mim
Desprovida de qualquer bem material
Deixei tudo registrado em dias
Em anos, madrugadas e manhãs
Para que não me esquecesse que existia
Afã em me fazer existir
Somente assim sei que vivi
Guarde com carinho e zelo
Minha Poesia registrada em rascunhos de vida
Meus anseios almejando saída
Entroncamentos onde me vi dividida
Tudo o que pude ser de melhor ficaram nas escritas
Não chore por dor ou lamente-se por não poder se opor
Nas escritas tem meu consolo
Minha força interior
Esperança de criança
Minhas lágrimas de quem soube nem ser tanta
Faça uso delas
Leve as contigo e faça o que não consegui e sempre quis
Tudo o que vivi
Tudo o que morri
Tudo o que sonhei
Mesmo que eu vire pó
Lhe causando tristeza
Deixando te só
Deixo tudo em testamento
Tudo o que tenho me foi emprestado
Eternizados em folha de papel
Reluzente como ouro
Meu maior tesouro...
Minha Poesia!

LUCILA ISIPON





















da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como se fosse a origem da sede
e sossega-se contra o peito da alvorada
da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida
da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove morte contra os vidros
por dentro como soa o fim

Pedro Sena-Lino



















Por quanto mais tempo poderei ser um muro contra o vento?
Por quanto mais tempo
Poderei suavemente obscurecer o sol com a palma da
minha mão?
Interceptar as setas azuis da lua fria?

Sylvia Plath

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

















Flores do mais

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

Ana Cristina César

segunda-feira, 10 de agosto de 2015



























Passará
Tem passado
Passa com a sua fina faca.
Tem nome de ninguém.
Não faz ruído. Não fala.
Mas passa com a sua fina faca.
Fecha feridas, é unguento.
Mas pode abrir a tua mágoa
Com a sua fina faca.
Estanca ventura e voz
Silêncio e desventura.
Imóvel
Garrote
Algoz
No corpo da tua água passará
Tem passado
Passa com a sua fina faca.
Hilda Hilst





















DELÍRIO PURO
Quanto mais louco
lúcido estou.
no fundo do poço que me banho
tem uma claridade que me namora
toda vez que eu vou ao fundo.
me confundo quando boio
me conformo quando nado
me convenço quando afundo.
no fim do fundo
eu te amo.
Chacal

domingo, 9 de agosto de 2015






















Esta noite, outra noite,
esta manhã que nasce pelas frinchas
da janela pequena entreaberta,
por planaltos e vales caprichosos,
lagos azuis, ravinas e pinhais,
irei de vez em quando perguntando
onde existes? onde estás?

António Franco Alexandre, "Uma fábula"


























SEMPRE DE NOVO

Sempre de novo, mesmo conhecendo a paisagem do amor
e o pequeno cemitério com os seus nomes comoventes,
e o abismo, terrivelmente mudo, onde os outros
terminaram: sempre de novo saímos, a dois,
sob as velhas árvores; deitamo-nos, sempre de novo,
entre as flores e de frente para o céu.

Rainer Maria Rilke
In Senhor, é Tempo





















Antes soubesse eu
o que fazer com estrelas na mão.
Se dilacerar-lhes a ponta
ou simplesmente não tocá-las.
Se estão perto cegam meus olhos
Se estão longe as desejo.
Antes soubesse eu
o que fazer com estrelas na mão.
Hilda Hilst

sábado, 8 de agosto de 2015




























notas sobre ela

ah essa pequena...
que caminha pela vida
perfumada com amor próprio
sorrindo ela vai desarmando
todo o desamor do mundo
mostrando que viver é simples
e a felicidade é de graça
feito passeio na praça.

Zack Magiezi























PERISCÓPIO
aqui estou
filho do tempo e do mar
como um infante
que tece de silêncios
seus dias e faróis
sou sua noite
vestida de arrecifes
e trampolins
pega meus braços
nos penhascos
onde choras
e te escondes
pisa o solo
ao redor dos pássaros
e dos seus medos
canta
como uma criança
que corre e não se espanta
protege a noite
como um caminhante
do seu paraíso e clarim
e
quando despertar
acalenta tudo que move
entre seu corpo
e o mundo que dorme.
Cgurgel

quinta-feira, 6 de agosto de 2015






















Promete-me que ficarás
até que a madrugada te surpreenda.
Ainda que não seja de abril
Esta noite que desce
Ainda que não haja estrela e esperança
Neste amor que amanhece.

Hilda Hilst
In Roteiro do Silêncio

quarta-feira, 5 de agosto de 2015






















O luar encheu a terra de miragens
E as coisas tiveram hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.

Sophia de Mello Breyner Andersen

The Essential Bill Withers

sábado, 1 de agosto de 2015

Uma didática da invenção - Manoel de Barros






















I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.