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domingo, 29 de setembro de 2013

A Francisco Espinhara



























A vida vencerá, Chico,
Tantas vezes
Desejando a morte
Tantas vezes sem sentido
Desbragadamente
Desprendido de tudo,
Pulando da ponte,
Dormindo com as putas,
Se afogando na maconha
E no álcool
Para mitigar um pouco
A dor
De não compreender
Tanta miséria
E desigualdade
Dançando ao som
Do maracatu em Rainha...
A vida vencerá, Chico,
A vida sempre vencerá,
Mesmo que um dia morramos.



Carlos Maia
20/09/06

quinta-feira, 26 de setembro de 2013



















Dorme, Biel
Dorme teu sono
Puro e inocente.
Podes fazer xixi na cama,
Eu não me importo.
Eu fiz até os 10 anos.
O que tu necessitas
Eu vou passar a te dar,
Com toda a força do meu ser!
Tua vida é uma chama
Que arde no meu peito.
Brilha contente, meu filho,
    Brilha alto!
Vamos conversar mais,
Falar do que você quer aprender
E gosta de fazer.
   Tu és muito sensível,
E minha ligação contigo
É muito forte.
   O teu grito ao nascer,
       Dilacerou minha alma.
Foi a alegria e emoção
   Mais forte que eu senti
Na minha vida.
   Teu grito naquela manhã
       De domingo.
           Teu grito
                 Atravessou
                      Meu coração,
E o partiu no meio.
      Meu filho,
           Meu sangue,
                 Minha estrela,
                       Minha Luz.
                           Te amo muito.



Carlos Maia
Julho/92

quarta-feira, 25 de setembro de 2013





















Havia noites em que
porta ficava aberta,
E podíamos vislumbrar
Na penumbra
cidade mergulhada na neblina.
Havia noites em que
porta aberta
Saíamos na chuva
Pelas ladeiras de Olinda.
Havia noites
Em que a tristeza
Era uma mera
Lembrança,
Perdida
Nos confins da infância,
Entre mangueiras
atiradeiras.
Havia noites
Em que pairava
Como uma gaivota
A eternidade do momento.



Carlos Maia
Maio/84

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

























Ele foi aonde
Eu não pude alcançar...
E escutou sons inefáveis,
Visões de anjos
E querubins...
Ele foi muito longe,
Meu bebê...
Flecha lançada do
Meu coração
Minha vida
Minha luz
Voa...
Voa alto Luquinha,
Voa sem medo...
Que um dia
Eu quero
Poder te acompanhar...



Carlos Maia
Junho/93

domingo, 22 de setembro de 2013

























O Medo 


O medo veio de longe,
 atravessou os mares
 nos porões das
 caravelas,

 deu gritos infames
 e chicotadas
    
 ainda em alto-mar,

 assaltou as praias,
 devastou as matas,

 cravou a cruz no corpo nu,

 pilhou, torturou, estuprou
 a carne tenra,
 matou impiedosamente,

 criou derramas
 e dízimos,

 a ferro e fogo
 arrancou a alma.


 Ramos  Sobrinho  -  Olinda, 2013

sábado, 21 de setembro de 2013



















Vai, anda sobre as estrelas...
Vai buscar o incogniscível
Na esmeralda deste mar!



Carlos Maia
06/06/08

sexta-feira, 20 de setembro de 2013



















A foto da rosa
No jardim
Junto a tua foto,
Meu pai,
Como uma homenagem
Póstuma.
Esta rosa
Jamais murchará...
Quanta saudade, meu velhinho,
Quanta saudade...
Shangrilá manda
Lembranças para ti,
Sei que agora
Estás em outra dimensão
Mas recebe
Esta rosa com carinho...



Carlos Maia
Agosto/96

quinta-feira, 19 de setembro de 2013






















Para Jofrinho.


Eu encontrei
Num copo de cerveja
Uma bactéria leprosa,
Muito beba e
Muito prosa,
Foi aí que eu descobri
O protoplasma de plástico
E então eu perguntei:
O que é que meu
Pé tem a ver com
Minha mãe?



Carlos Maia
Julho/78

quarta-feira, 18 de setembro de 2013




















De onde emerges
Tempo,
Nos subterrâneos de minha mente?
Entre...
Veja as espirais de fumaça
Invadindo castelos medievais...
De onde emerges, tempo?
De que dourado
Teceste
Os fios da memória?
Em que nebulosa
Se esconde
Tamanho medo?
As garras do girassol
Explodirão esta bolha!
Olha...
A menina desce as ladeiras
De Olinda,
Sentindo subir nos cabelos
O vento das recordações
Das ruínas...



Carlos Maia
Julho/85



















Eu queria saber desenhar
Pra poder dizer tudo
Que vai dentro de mim.
Esse grito contido,
Essa espera,
São frutos de um mesmo
Sentimento.
Sentir Deus em toda sua
Pureza, perfeição e glória.
Ter uma pequena idéia
Do seu reino
Através das estátuas
De sol em
Uma onda que se quebra
Num mar agitado e tenso...
E de uma aurora
Que se descortina
Em mil cores vivas
Esvoaçando e abrindo
Sua mente em paz.
A paz de uma onda
Que se quebra
Contra o vento e deixa
Uma névoa de música
No seu rastro,
Branca e pura como
A areia ainda intocada;
A paz
De um dia novo que
Começa no coração
Da gente;
Como o sentimento
De uma gaivota
Planando num mar
Límpido e cristalino.
E toda a força
Da chuva
Lavando nossas almas
À beira-mar...
E sentir que tão poucos
Sentem isso.




Carlos Maia
Junho/81

terça-feira, 17 de setembro de 2013




















Erickson, Erickson...
Como eu poderei chegar agora
No mercado da Boa Vista
E não haver mais a possibilidade
Da tua presença lá...
Ou na segunda sem lei
No Burburinho
Ou pelas ruas de Recife
Nas noitadas intermináveis...
Escuto o canto do Capibaribe,
Um canto
Triste e silente,
Não ouvirei mais
A tua lucidez, amigo,
Embriagado; pela vida!
A única coisa que eu
Desejo agora
É a morte
Para poder aplacar
A minha dor
Mas,
Não tenho pressa...



Carlos Maia

07/08/07

sábado, 14 de setembro de 2013



















O beijo da tua boca materna,
Só me faz desejar-te bem!
E é assim que te amando
Vou cada dia mais além!



Carlos Maia
12/09/13

sexta-feira, 13 de setembro de 2013






















E aqui estamos reunidos
Nesta noite
Sem portais,
Os umbrais do tempo ecoam
No mais longínquo do nosso ser.
Eis tempo, eis templo,
Eu diante de ti
A minha alma acaricia
A luz do espectro
Desta vela,
E ela lança um caleidoscópio
De cores
Em nossas almas;
Vem, vem comigo
Nesta estrada de terra
Sentir a poeira varrer as nossas almas;
Vem andar pelos trigais
Qual Van Gogh em noite
Raio de luz,
E neste templo dos iniciados
O que se escuta
É o crepitar da chama,
    É o crepitar da chama...



Carlos Maia
30/07/87

quinta-feira, 12 de setembro de 2013





Já fui andorinha, pardal,
Falcão, gaivota e águia.
Já fui Cipreste no sul
Do Líbano.
Coqueiro
Em Arraial-da-Ajuda,
Hoje eu sou um homem
Voando em espantosa velocidade
Pelos confins do Universo
Sou um Pássaro,
Sou um homem,
Sou tantos e ao mesmo tempo
Nenhum.
Em que banco
De ônibus
Ficou perdida
A minha identidade?



Carlos Maia
Janeiro/99






terça-feira, 10 de setembro de 2013



















Ainda hei de fazer uma canção
De amor pra ti Recife,
Recife, dos rios dourados pelas
Luzes da noite.
Recife, dos flamboyants e das acácias.
Recife, das auroras em Boa Viagem
Após porres homéricos na Rua da Moeda.
Recife, das putas adolescentes
Da Cons. Aguiar.
Recife, dos pedintes nos sinais
Recife, dos pôr-dos-sóis no Capibaribe.
Recife, de tanta miséria
Recife, de tanto prazer
Recife, das pontes inumeráveis
Recife, dos poetas espoliados.



Carlos Maia
Agosto/2001

Saí pro garagem



















Coloquei a camisa mais colorida
e o meu colar de poder
aspergí-me com o perfume
das flores campestres
e saí pro mundo
pro turbilhão
das mentes insanas...



Carlos Maia
27/08/08

domingo, 8 de setembro de 2013





Não há mais flores de Maio
E a esperança
Há muito
Adormeceu nas conchas...
Resta uma estrada a seguir
Buscar no âmago
O valor da essência
Não desperdiçar mais
Palavras nem atos
Quase tudo já foi dito...
Ainda queima em meu coração
Este sol dos teus olhos...



Carlos Maia

14/09/08




De noite, sob as estrelas
Cavalgar sem rédeas
À beira-mar...
Ah! Estrela-do-mar
Toma meus sonhos
Em teus braços
E conta pra tua
Amiga do céu,
Todos os meus desejos...
De caminhar com
Minha amada
Entre os girassóis,
De colher lírios
No campo...
E de noite, sob as estrelas
Dormir na praia deserta.
Desperta,
Na palma das nossas mãos.




Carlos Maia

Novembro/82

sábado, 7 de setembro de 2013





Meu passado...
Tudo que vivi
Tudo que sou
Todos os descaminhos
Todos os acertos
Todo gozo
Toda dor
Todo aprendizado.
E ao mesmo tempo
É tudo
Como folhas de outono
Voando na relva...



Carlos Maia
13/10/08

sexta-feira, 6 de setembro de 2013





Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa
casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me
beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.


Eduardo Galeano

















Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?



Paulo Leminski




Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projeto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exatos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.



António Franco Alexandre




















Segunda-feira morta
No Recife antigo.
Passeio pelos
Recônditos de minha
Alma,
Deserta,
Como este lugar.



Carlos Maia
23/01/06

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

























Ele disse que logo, logo chegaria em casa.
Saiu da loja em que fora trocar o celular e um pouco mais na frente encontrou uma amiga Rastafari que o intimou a recitar um poema.
Recitou cinco Hai-Kais da lavra mais recente enquanto ela esperava abrir o sinal. Na padaria encontrou um auditor da receita federal que há muito não o via e ficaram conversando durante uma meia hora para poder colocar os assuntos em dia. Já perto de casa parou no sapateiro para ver se ele já tinha consertado o tênis. Ficaram conversando durante uns vinte minutos. Quando saiu da sapataria encontrou outro amigo que estava abrindo um barzinho ao lado da sapataria, e ficaram conversando sobre a reforma. Quando finalmente chegou em casa o amigo que tinha ido atualizar seu blog com ele já tinha ido embora, recebeu uma mensagem pelo celular com um bocado de desaforo. Não tinha como lhe explicar...


Carlos Maia
























Olho para a porta aberta
Do meu guarda-roupa
E escrevo esta poesia
Num caderno que não é meu
Com uma caneta
Que não escreve
E ouço
Uma música que já não é minha...
Olho para a porta aberta
De um quarto
Que já não é meu...
Nada me pertence
E eu fecho as portas
Daquela pessoa
Que eu fui;
E não tenho mais
Saudades,
O
  Futuro
         Me
             Espera
                 E eu parto
                     Em busca
    De uma rosa
                perdida
                       a vagar
                pelas
      estradas
da minha
mente...
O Futuro
     Me
       Espera
          caro amigo
                 sentado
             no meu
        quarto
      a
ler playboys
e livros e a me fazer
perguntas.
Olho agora para a porta aberta
Do meu Destino...
E me questiono
Por que a vida
De repente
Ficou sem sentido?
Escrevo com uma caneta sem tinta
     Num caderno que não é meu!
                Acabou a tinta
     mas eu continuo a escrever!
               Acabou a tinta
              a tinta acabou!




Carlos Maia

Junho/80

quarta-feira, 4 de setembro de 2013




















Ah!...As andorinhas,
em seus vôos plenos de sol.
A alegria plena de paz
pulsando em cada célula
do seu ser.
Os Boing’s jamais terão
a alegria desse voo
pleno,
de liberdade,
de vida saudando
o criador,
da alegria de existir,
simplesmente
existir...



Carlos Maia

Junho/92



Eu, andarilho das estrelas
Navego
Entre as pedras oníricas
Lembrando-me
De vidas ancestrais...



Carlos Maia
31/12/07

terça-feira, 3 de setembro de 2013




Como se brotasse
Da terra
A indumentária do sonho
Tantas vezes
Acalentado em outonos infernais.
Separação,
Concursos,
Pedras!
Planos de alçar voo
Em espaços mais amenos...



Carlos Maia
24/04/99

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Efêmero - Natanael Lima Jr.




Efêmeros,
o sentido perdeu o sentido
e a vista não avista
além do vasto.




*Do livro "À espera do último girassol & Outros poemas"

In: www.domingocompoesia.com

Arcos - Octavio Paz




















À Silvina Ocampo


Quem canta nas ourelas do papel?
De bruços, inclinado sobre o rio
de imagens, me vejo, lento e só,
ao longe de mim mesmo: 6 letras puras,
constelação de signos, incisões
na carne do tempo, ó escritura,
risca na água!


Vou entre verdores
enlaçados, adentro transparências,
entre ilhas avanço pelo rio,
pelo rio feliz que se desliza
e não transcorre, liso pensamento.
Me afasto de mim mesmo, me detenho
sem deter-me nessa margem, sigo
rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
imagens, o rio pensativo.


Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo.


1947

domingo, 1 de setembro de 2013





















Uma voz lhe dizia:
Escreva, escreva...
Os olhos não se cansavam de ter o pasmo
de contemplar as coisas como da primeira vez.
Passava horas admirando os ipês da Agamenon
Magalhães. Uma vez quase era atropelado.
Gostava de ficar tomando café durante a noite,
pois era quando produzia mais, adorava o silêncio
noturno que só era quebrado pelas suas músicas
prediletas que escutava com o fone de ouvido.
Estava de saco cheio com as reuniões de
Narcóticos Anônimos. Achar um cérebro
pensante estava cada vez mais difícil nessa cidade. 
Na igreja também não se enquadrava. Tinha parado de
beber e de usar drogas, mas tinha ficado um vazio do
tamanho de um bonde. 100% dos seus amigos ou eram
alcóolatras ou drogonautas. Agora tinha de evitá-los.
E não tinha contra partida. Tinha que dar dentada em
granito. Mas tava conseguindo. Recentemente passou
por uma depressão braba. Vinte e oito dias sem sair de casa.
Conseguiu ficar bom sem remédios. Gostava de ouvir o canto dos pássaros na sua casa. Não tinha mais saco de andar na Jaqueira.
Perdeu as esperanças de fazer um novo círculo de amizade. Se contentava em falar com os velhos amigos por telefone, quando
geralmente os encontrava bêbados, mas ele entrava no clima, 
não precisava de mais nada para fazer a cabeça, era doido por
natureza. O filho mais velho o invejava ao vê-lo altamente eufórico
só com uma latinha de coca-cola. A única coisa que se arrependia
era de não ter experimentado LSD e mescalina. Abria seu coração
como quem abre a porta do guarda roupa. Jesus era seu ídolo, mas
achava que o evangelho estava muito deturpado nas igrejas. Não se sentia à vontade em nenhuma delas. Gostava também de Buda, do
Taoísmo e do Hare Krishna. Adorava meditar. Uma vez ficou meditando
durante três horas seguidas. Saiu andando em estado de graça, rindo
pra todo mundo. Às vezes ele não se suporta, mas passa.


Carlos Maia.

Poema inédito de Alberto da Cunha Melo.




















Mal acabo de abrir
um livro
já te sentes sozinha.
Enraivosa, vais ao jardim
matar o tempo
e as borboletas.
Nunca chames de abandono
a todo passo
que não for dado
em tua direção.
Eu posso estar longe
construindo
tua casa de pedra.
Eu posso estar longe
construindo-te.


Agradecimento especial a Chico, irmão de Alberto da Cunha Melo, 
que guardou na memória este poema e me passou hoje no Festival
"A Letra e a Voz".

Lições tardias - Alberto da Cunha Melo




















Não devemos aprender a esperar.
Devemos, sim,
esquecer as coisas esperadas.
Ainda que nos digam:
"espere-me, à tal hora, em tal jardim",
o jardim nos deve bastar.
Que a chegada daquilo
que nos fez esperar
seja algo normal naquele mundo,
como a morte de uma borboleta
ou a fuga de um lagarto nas pedras.
Se nada chega,
se ninguém aparece,
não notaremos a sua falta.