Translate

Mostrando postagens com marcador Affonso Romano de Sant'Anna. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Affonso Romano de Sant'Anna. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de novembro de 2015























CHEGANDO EM CASA

Chegando em casa 
com a alma amarfanhada 
e escura 
das refregas burocráticas 
leio sobre a mesa 
um bilhete que dizia: 

- hoje 22 de agosto de 1994 
meu marido perdeu, deste terraço: 

mais um pôr de sol no Dois Irmãos 
o canto de um bem-te-vi 
e uma orquídea que entardecia 
sobre o mar.


Affonso Romano de Sant'Anna

terça-feira, 3 de novembro de 2015




















Estou cercado de presenças
que se foram. Dissolveram-se
mas estão pulsando em mim.

Affonso R. de Santanna
arte: Hiroshi Watanabe

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015




























JOGANDO COM O TEMPO

O presente ameaça
o futuro não chega
o passado não passa

o passado não passa
o futuro não chega
e o presente ameaça
o passado trespassa
o futuro não chega
o presente escorraça.
O tempo é trapaça?
tempo:
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha

Fonte: https://www.facebook.com/profile.php?id=100000271192139&fref=nf
Face: Amália Catarina Wichter Grande

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Limites do Amor - Affonso Romano de Sant'Anna




Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar.

Carta aos mortos - Affonso Romano de Sant'Anna




Amigos, nada mudou
em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração, insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A primeira vez que entendi - Affonso Romano de Sant'Anna




A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.