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quarta-feira, 29 de julho de 2015





















Se me perguntarem como estou, eis a resposta:
Estou indo. Sem muita bagagem.
Pesos desnecessários causam sempre dores
desnecessárias. Esvaziei a mala,
olhei no fundo dela, limpei, e estou indo ...
preenche-la com coisas novas.
Sensações novas, situações novas,
pessoas novas.
Tudo novo.

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 28 de julho de 2015






















Tange o sino, tange
Tange doloroso.
Cai como quer um alfange
No meu sonhar de gozo...
E o sino tange, tange
Lento e ao longe amoroso.
E tange e plange ao longe
Aérea melodia...
Cada som é um monge
Na sua alva fria...
Tange o sino de bronze
No escurecer que esfria.
E em mim também
A tarde do meu ser
E plange em mim, na lonjura
Do meu vago esquecer
Um sino ao longe, a agrura
De me saber ser.

Fernando Pessoa
In Poesia - 1902-1917

domingo, 26 de julho de 2015




Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de olhar um momento.
Ah! se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum
de imagens:
aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida,
Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!


Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

















Amor, então, 
também acaba? 
Não, que eu saiba. 
O que eu sei 
é que se transforma 
numa matéria-prima 
que a vida se encarrega 
de transformar em raiva. 
Ou em rima. 


Paulo Leminski

quarta-feira, 22 de julho de 2015





















Pequenas felicidades
passeiam por nossos dias
como joaninhas na palma
da mão,
como um desenho de orquídea
trazido pelo vento.
Para não desperdiçá-las
há que estar sempre atento,
caminhar vagarosamente
pelos contornos da tarde,
encher os bolsos com a areia
dourada do tempo.


Roseana Murray

terça-feira, 21 de julho de 2015




























Erma

Recolho-me tão profundamente
que tudo me alcança:
mísseis, desastres, lanças.

Recostada ao rosto de Deus
pedi-lhe a fé perdida
a palavra antiga – invencível.

Ele me deu o mar no nome
e uma fome borgeana, dizendo-me:
Eis sua herança, jovem senhora
de velhíssima alma e furiosas lembranças.

Marize Castro

Foto: Henrique Moreira




















Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.

Luís Filipe Parrado



























Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.
Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.
Como prender-te
em teia tão frágil?

Luísa Dacosta

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Cordilheiras - Simone

Repeteco






















DEUS NO MUNDO

Quando eu morrer, verei o avesso do mundo.
O outro lado, além do pássaro, da montanha, do poente.
O significado verdadeiro, pronto para ser decodificado.
O que nunca fez sentido, fará sentido,
O que era incompreensível, será compreendido.
- Mas, e se o mundo não tiver avesso?
Se o sabiá na palmeira não for um signo,
Mas apenas um sabiá na palmeira? Se a
Sequência de noites e dias não fizer sentido
E nessa Terra não houver nada, apenas terra?
- Mesmo se assim for, restará uma palavra
Despertada por lábios agonizantes,
Mensageira incansável que corre e corta
Campos interestelares, corta galáxias que giram,
E clama, reclama, grita.


Czeslaw Milosz
Poeta polonês - Nobel de Literatura

The Best of Classical Music - Mozart, Beethoven, Bach, Chopin... Classical Music Piano Playlist Mix





















Tortura

A gota d´água caindo devagar,
A luz ligando e desligando
Ininterruptamente
O choque frio
A unha sendo retirada
A cabeça mergulhada
A dor, a sede, a fome,
O espelho

André L. C. Ladeia



























Metamorfose

Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se refletem na água.
E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter...
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.

(Jorge de Sena, in Coroa da Terra)

domingo, 19 de julho de 2015



















A Repartição dos Pães 

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-la na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado, ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós…
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. ‘Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.
Pão é amor entre estranhos.

Clarice Lispector

Vander Lee - Seleção






























A MORTE É UMA ILUSÃO QUÂNTICA

Os mais recentes estudos na área da Física Quântica demonstraram que matéria e energia são como dois lados de uma mesma moeda. Uma partícula pode se apresentar de uma forma ou de outra, com a mesma curiosa facilidade que consegue se deslocar de um espaço a outro instantaneamente, sem percorrer o caminho intermediário.
Porém, mais surpreendente do que isto, os experimentos demonstram que a “consciência” é que define o mundo físico, e não o contrário. Ou seja, se até hoje existia uma discussão acadêmica no sentido de que a matéria teria originado a vida (consciência), hoje se percebe de forma cada vez mais nítida que ocorre justamente o oposto: a consciência (vida) é que cria a matéria.
Neste sentido, o Universo seria composto de elementos quânticos (energias com suas frequências e vibrações) que regeriam o que tem sido chamado de “Universo das Possibilidades”. Neste Universo (ou multiverso), preexistiriam todas as situações possíveis de serem concretizadas. Porém, a escolha de uma única realidade dentre infinitas outras possíveis, aconteceria a partir do momento em que a consciência atue na situação específica. Como consequência, ocorre a “materialização” de uma única realidade no mundo “concreto” em que vivemos.
Tamanha a importância deste conceito, que hoje muitos cientistas defendem a tese de que o Universo é infinito não porque já exista um “espaço” infinito de “vácuo” a ser preenchido, mas porque cada vez que a “consciência” atinge (conhece) os limites do Universo observável, estas fronteiras automaticamente se expandem, criando mais Universo, mais matéria “concreta”, mais realidade de forma indefinida e sem fim.
Logo, NÃO existiria NADA no mundo “concreto”, antes da consciência ter algum tipo de contato com ele. Até então, a única realidade é o mencionado Universo das Possibilidades.
Como consequência, temos que assim como a matéria “física” é uma ilusão que surge as partir da interação da consciência, a morte também o é (pois a morte é física, não representando nada mais do que o fim das funções fisiológicas de um corpo). E se a vida que cria o mundo e não o contrário, então ela preexiste ao Universo em si e, portanto, preexiste à morte física.
Válido lembrar, que a morte neste plano é apenas “uma das possibilidades físicas” dentre as infinitas que pairam no Universo Quântico, de maneira que a “experiência” de morrer não tem como existir em um sentido “real”. Soma-se a isto, o fato de, segundo Einstein, o espaço-tempo ser comprovadamente relativo (não existe de forma linear), existindo como mera consequência do Mundo material (que por sua vez é consequência da consciência). Como poderíamos morrer se o Tempo também não é absoluto? Se “antes e depois” se confundem com absoluta naturalidade científica?
A verdade é que a cada dia se compreende mais a fundo o simples fato de que A MORTE NÃO EXISTE. A realidade não é composta de matéria (não contendo em si, portanto, a morte física), mas de ondulações e oscilações energéticas, onde cada final de ciclo não representa nada mais do que o exato início do ciclo seguinte. Nossos cinco sentidos estão limitados a perceber um Universo físico de Ilusão, criado pela própria Vida Maior para dar sentido a nossa própria existência espiritual.
Daniel Kaltenbach
Fonte: http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br/

Martelo - Ascenso Ferreira




















Teu corpo é branquinho como a polpa do ingá maduro!
Teu seio é macio como a polpa do ingá maduro!
- E há doçura de grã-fina no teu beijo, que é todo ingá...
- E há doçura de grã-fina no teu beijo, que é todo ingá...
Por isso mesmo,
Minha Maria,
Eu, como a abelha
do aripuá
pra quem doçura
é sempre pouca,
só quero o favo
de tua boca...
Há veludos de imbaúba nessas redes de teus olhos,
que convidam, preguiçosas, a gente para o descanso,
um descanso à beira-rio como o ingazeiro nos dá!
Por isso mesmo,
Minha Maria,
de noite e dia
nessa corrida
triste de ganso,
para descanso
e gozos meus,
só quero a rede
dos olhos teus!
Só quero a rede macia dos teus olhos!
Só quero a doçura de grã-fina do teu beijo...!
E na rede eu me deito,
cochilo e descanso,
tenho um sono manso
que me faz sonhar...
Sonho que és ingá
de doçura louca,
que na minha boca
vem se desmanchar,
que na minha boca
vem se desmanchar...


Fonte: http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br/





















A TARDE

Tinha sol, vento fresco, um bocado
De gente passando nas vias.
Tinha a praça, os bancos, arbustos,
A tarde de acesa alegria.

Tinha os carros, os jovens falantes,
As crianças em viva euforia,
O semblante de paz de uma moça
Que levemente sorria.

Tinha o olhar brilhante do jovem
Que em divagações se perdia.
Tinha a luz fulgente do sol,
Que em meu ser reluzia.
Tinha nuvens tão brancas no céu,
O azul o mar parecia.
Eu bem via o relógio da praça,
Mas o tempo não existia.

Era a tade inquieta e bonita,
Que a todo vivente envolvia:
Era vida, era cores, tão clara,
Era um fogo infinito de vida
E ao meu peito por completo acendia.

Barão da Mata


Fonte: http://baraodamatatotal.blogspot.com.br/

Um Cheiro de Verde, Fresquinho - Itárcio Ferreira
















Um cheiro de verde, fresquinho,
viajando através da infância, no tempo.

A chuva, os barcos de papel,
o sol desenhado pela irmã caçula,
o cheiro da terra molhada.

O som de passarinhos que eu,
minino criado por vó,
não sabia os nomes, nem imitar.

Java, meu amigo de infância, sabia;
as mãos em concha, o sopro, o assovio.
Além de ser campeão de botão de mesa,
peão e o que mais viesse de brincadeira.

Quantos barquinhos foram naufragados?
Os sonhos são eternos enquanto não realizados?

As canções da infância ficaram perdidas
em alguma nuvem do cérebro.

Por que sou o que sou
e não o que desejaria ser?

Pudesse voltar no tempo...
Não, é melhor não.

Uma existência de dores, depressões
e guerras perdidas, já me basta!

Melhor um copo com uísque, gelo,
a voz de Maysa e apenas me emocionar,
eternamente... Até o relógio despertar.

quarta-feira, 15 de julho de 2015


















RECONHECE A MÁSCARA
Reconhece a máscara
ao fundir sua boca
na obscuridade
sem palavras
que o ser não tem a casa
mas somente o rosto
essa memória do fastio,
das pegadas, às vezes,
de um vento de ironia
de algum beijo
de algum verão que aconteceu tão tarde
murmurando sua historia entre as árvores.
Porém essa boca
na dor se desgasta
de lugar em lugar
procurando o local
para a casa perfeita.
A maldição é vasta:
também se sabe
condenada à busca.


Esteban Cabañas

terça-feira, 14 de julho de 2015






















SOMBRA DO TIGRE...

                                       
Sombra do tigre e do cão de caça
Rosto de tirano
o dedo que detém a tempestade
se enrola e se adelgaça
para dar forma a uma borda:
o punhal que assegura
teu coração furtivo
para brandir o estandarte
de um sonho do despedaçado.


Esteban Cabañas

Marconi Notaro - Não Tenho Imaginação pra Mudar de Mulher

Erasmo & Roberto Carlos - Sentado a beira do caminho




























O PODER
quem invadiu o litoral
onde a ganância
ganha corpos e espinhos ?
quem suspirou pela rua
que o vexame do mandatário
resolveu sair por ai ?
que disse que a razão
sempre foi cautelosa
e pueril ?
quem deixou de esperar
pela sentença repleta
de iconografias e porões ?
quem soube da existência
da corda que inspira
remorsos e tresloucadas várias ?
quem repetiu o desejo
de ser tão ímpio
ao se despedir do seu armistício ?
quem rispidamente
roubou a palavra
de quem sabia de tanto ?
a poltrona
que o chefe senta
está sangrenta de profundos cortes
como jamais se viu
tempo de velocidades extremas
escaldadas de olhos vis
e réstias senis.
Cgurgel

O HOMEM (JESUS CRISTO) legendado - Roberto Carlos / Erasmo Carlos.avi

B. J. Thomas - Rock And Roll Lullaby

MICHAEL JACKSON - MUSIC AND ME

The Jackson 5 - I'll Be There and Feelin' Alright - Diana Ross TV Special (1971)

Ben - Jackson 5

Queen - Bohemian Rhapsody (Official Video)

Na Primeira Manhã - Alceu Valença e Zizi Possi






















INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA

A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...
Mario Quintana

segunda-feira, 13 de julho de 2015

You Raise Me Up Martin Hurkens LEGENDADO em portugues














Manter-se atento
No limiar do momento
No limiar do lapso
Evitar o colapso

Manter-se louco
ainda que seja só
Por um pouco

Cair na real
Mesmo vivendo o surreal

Adormecer na papoula
Apesar do sumiço de chola.

Criar o inenarrável
Apesar de eu não querer
Mais rimar!

Carlos Maia
12/07/15

Jethro Tull Live At Montreux Jazz Festival 2003 Full DVD




























Os funcionários não funcionam.
Os políticos falam mas não dizem.
Os votantes votam mas não escolhem.
Os meios de informação desinformam.
Os centros de ensino
ensinam a ignorar.
Os juízes condenam as vítimas.
Os militares estão em guerra
contra seus compatriotas.
Os policiais não combatem os crimes,
porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas,
os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas."
Eduardo Galeano (trecho do Livro dos Abraços)

domingo, 12 de julho de 2015






















ÂNSIA
para onde irei
quando o tempo que vivo
se for?
quando saberei vestir
a roupa escondida
de tantas viagens e dilúvios?
qual a distância
que me separa dos
animais e seus vales ?
por onde está
aquela verdade
que o vento se esqueceu
de levar ?
há quanto tempo
meus pés não
pousam no espaço
da criança que se calou ?
amanhã o relógio
que acorda os vivos
se vestirá de mentiras
e silêncios ?
e a sua voz
que um dia espalhou
tiras de fumaça pelo
ar ?
espere
vai chegar a hora
onde seu silêncio
encontra porto e coração.
Cgurgel

Ray Charles & Elton John - Sorry Seems to Be the Hardest Word (2004)


















RISÓRIO
mesmo que a carapuça caia
ou que seu rosto vaia
mesmo que a vida errante
e que as flores gigantes
mesmo que o desterro grite
e que a faca palpite
mesmo que o mundo saia
e que a fortuna gandaia
mesmo que a raça padeça
e que seu sonho não cresça
mesmo que a revolta se instale
e que o zelador escale
mesmo que o futuro, se esborrache
e que seus ombros não encaixe
mesmo que seus dias sejam furos
e que a revolução esteja nos muros
repare
nem trema
supere
e rema.
Cgurgel

Luiz Gonzaga - Peça Teatral de João Falcão




























Peço a Paz e o Silêncio

Peço a paz
e o silêncio
A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento.
Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão.
Peço a paz
silenciosamente
a paz, a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte.
A paz peço,
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara,
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol.
Peço a paz
e o silêncio.

Casimiro de Brito,
in "Jardins de Guerra", 1966

sábado, 11 de julho de 2015























A GAIVOTA MORTA

Não morrerás jamais minha gaivota
suprema ave do mar, pobre princesa
estás na alma do poeta presa
enquanto a alma do poeta é morta
Suprema alma do poeta viva
suprema alma da gaivota morta
com a tua morte a vida fez-se altiva,
com a minha vida encontro a mesma porta.
Negra ave do céu, cativa e eterna,
tu pairas sobre o mar depois de morta
eu pairo nesta vida que se inferna.
Negra gaivota morta, vida minha.
Tuas asas perdi em em hora torta
na terra te ganhei como rainha

ÂNGELO MONTEIRO
(In As Armadilhas da luz)