"Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma." - Cora Coralina
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quarta-feira, 3 de agosto de 2016
INFÂNCIA
Como é poético
nascer em uma cidadezinha,
cantar a sua cidadezinha.
Como é poético e saudável
morar em uma cidadezinha
onde o café da manhã
nos espera no quintal,
onde os pássaros
substituem os estéreos.
Mas a verdade é que de minha infância
lembro apenas os dias de chuva
e a impossibilidade de me molhar...
De minha infância lembro apenas
o começo da impossibilidade de ser.
Itárcio Ferreira
terça-feira, 8 de março de 2016
MESA DE BAR, poema coletivo feito a dezesseis mãos
Mesa de bar retarda a morte
Desanima qualquer suicida
Recria novas viagens, reinventa a vida.
Desanima qualquer suicida
Recria novas viagens, reinventa a vida.
Acende novos olhares, perde-se o medo
Instala sem decreto a paz
E faz mais, cria paixões.
Instala sem decreto a paz
E faz mais, cria paixões.
Ressuscita a longínqua infância
Traz ao olhar o primeiro beijo
Aquela velha e eterna canção.
Traz ao olhar o primeiro beijo
Aquela velha e eterna canção.
Lugar de relatos de experiências,
convivências, carências e revelações
E outros retalhos de emoções.
convivências, carências e revelações
E outros retalhos de emoções.
As cadeiras lembram bancos de escolas
Alguém passa e pede esmolas
Lembra a vida, o acaso e a ocasião.
Alguém passa e pede esmolas
Lembra a vida, o acaso e a ocasião.
O álcool em colunas Romanas
Impede o avanço inimigo
Dos Bárbaros: suicídio ou depressão.
Aldo Lins, Itárcio Ferreira, Adriel Evangelista, Chico, Impede o avanço inimigo
Dos Bárbaros: suicídio ou depressão.
Rita, Arakem, João e Chicão.
Celebram um poema de muitas mãos...
Poema realizado Sexta Feira, dia 04 de Marco de 2016,
no Bar de Leleu, no Mercado da Boa Vista
Visitem o face do Sarau da Boa Vista
Visitem o face do Sarau da Boa Vista
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
UM CHEIRO DE VERDE, FRESQUINHO
Um cheiro de verde, fresquinho,
viajando através da infância, no tempo.
A chuva, os barcos de papel,
o sol desenhado pela irmã caçula,
o cheiro da terra molhada.
O som de passarinhos que eu,
minino criado por vó,
não sabia os nomes, nem imitar.
Java, meu amigo de infância, sabia;
as mãos em concha, o sopro, o assovio.
Além de ser campeão de botão de mesa,
peão e o que mais viesse de brincadeira.
Quantos barquinhos foram naufragados?
Os sonhos são eternos enquanto não realizados?
As canções da infância ficaram perdidas
em alguma nuvem do cérebro.
Por que sou o que sou
e não o que desejaria ser?
Pudesse voltar no tempo...
Não, é melhor não.
Uma existência de dores, depressões
e guerras perdidas, já me basta!
Melhor um copo com uísque, gelo,
a voz de Maysa e apenas me emocionar,
eternamente... Até o relógio despertar.
Itárcio Ferreira
DÚVIDA OU AÇÃO CORROSIVA DO TEMPO ("...eu implorava ao deus ser eterno aquele momento, feito a presença de uma dor.")
Pela manhã,
enquanto olhávamos o mar
- a verde água, teus olhos negros –
e a brisa acariciava nossos corpos,
feito a presença de uma dor.
Hoje,
- quanto tempo depois? –
guardo apenas a tua lembrança
e a daquele instante
neste pequeno poema,
fadado à gaveta?
Itárcio Ferreira
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
FORTUNA
Um pássaro azul pousou na minha clave de fá.
A de sol recolheu-se, pois chovia.
Uma caneca de café numa mão.
A mesma cantiga matinal.
A minha, sempre presente, falta de talento.
Quis ser músico, não fui.
Guerrilheiro, não pude.
Vai ser burocrata! Gritou o destino.
Cansado de meus sonhos, dormi.
Mas a manhã insisti em nascer.
Itárcio Ferreira
A NOIVA "UMA INDISCRIÇÃO: A MORTE
NÃO USA CALCINHA"
Penso na morte,
e penso como uma obsessão.
Como se ela existisse, concretamente,
uma figura, uma mulher.
Muito melhor a morte do que o nada,
o nada: escuro, frio, infinito,
assim como o medo.
Espreito a morte, não como o fim,
mas como o desejo de todo mortal:
a imortalidade .
Sim, a imortalidade estaria na morte
Imagino a morte
uma caveira , vestida de negro ,
a ceifadeira à mão,
ou da pena de Gustavo Doré.
Imagino a morte com o rosto
da menina mais bonita
que amei em minha infância,
e olha que amei a muitas!
Aquela menina a quem nunca tive
coragem de me declarar,
pois, ou me faltavam palavras
(e eram tantas as que gostaria de
pronunciar, que se atropelavam
umas nas outras),
ou as poucas que eu conseguia balbuciar
saiam cansadas, de pernas bambas,
era mais difícil do que caminhar sobre muletas.
(Ah a poliomielite!)
Morte,
a mais linda menina de minha infância,
de meus sonhos, de minhas fantasias,
(ou as prostitutas bonitas, de saias curtas,
que eu ousava olhar, apenas olhar,
pois o mais era pecado
e surgiam feito flores em terreno fértil,
às nossas vistas da ladeira da rua da zona
na cidade do Cabo de Santo Agostinho,
onde Pizon descobrira o Brasil
e eu o sexo)
mas já agora mulher,
os seios ferindo a leve roupa
com que está vestida.
(Uma indiscrição:
a morte não usa calcinha !)
Ao invés de ceifadeira ,
a morte traz a sua mão
Um lindo sorriso
e uma boca de lábios grossos,
tudo anuncia,
e, com gestos leves ,
a morte me convida
a partirmos em viagem ao seu reino .
Existindo ou não outra vida ,
eu não sei,
sei apenas que foi uma boa morte
e eu gozei.
Itárcio Ferreira
domingo, 13 de dezembro de 2015
Plagiando Bandeira
Interiorano,
Nascido na zona da mata pernambucana,
Nunca soube
Usar gravata:
- Apenas no casamento,
Quiçá na morte.
Cidadão do mundo
Odeia profundamente as fronteiras e ama os diferentes.
Poeta? Não sabe, não tem certeza...
Mas, insisti.
Funcionário público cheio de poeira,
Achou na poesia e no uísque,
Uma maneira,
De respirar sob os escombros,
Da dita sociedade capitalista.
Quis ser músico, não tinha talento;
Guerrilheiro, não pôde,
A pólio o acertou,
Qual mercenário estadunidense,
Numa esquina mal iluminada,
Numa certa manhã de novembro.
Acreditou um dia em Deus, no outro em Nietzsche.
Em matéria de sonho: um suicida profissional.
Itárcio Ferreira
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
RÉQUIEM PARA A MINHA MORTE - Itárcio Ferreira
Abertura
Ao som de Tchaichovsky e Capiba
Ao som de Tchaichovsky e Capiba
Cenário
Bares e poetas amigos (vivos ou ausentes)
Bares e poetas amigos (vivos ou ausentes)
Erickson
Conheci Erickson Luna no Chambaril do Júnior, no dia 30/11/04, sua voz tronituante, seus livros, seus poemas, sua vontade de mudar o mundo, seu socialismo alcoólico, seu amor aos amigos... Tornamo-nos amigos, inevitável!
Conheci Erickson Luna no Chambaril do Júnior, no dia 30/11/04, sua voz tronituante, seus livros, seus poemas, sua vontade de mudar o mundo, seu socialismo alcoólico, seu amor aos amigos... Tornamo-nos amigos, inevitável!
Conhecia o Poeta de histórias contadas pelo primo Ítalo - que conviveu e produziu músicas com ele quando eram jovens - que um dia, depois de morar 20 anos no Rio de Janeiro, perguntou-me: Erickson ainda é vivo?
Em “Do moço e do bêbado”:
"Bê-a-Bá"
“Bicados num beco de mim
aos baques
bradam Baco e Bakunin”
Espinhara
Era sério o Chico, reservado, sisudo, sempre de chapéu e o eterno amigo Bráulio a tiracolo. Não dava trela, mesmo no Quitanda Vinil - que tive a honra de batizar - eram sempre os dois. Olhávamos, questionávamos, pedíamos, brincávamos, mas aquela amizade era intransponível, que o diga Camila, a musa.
Era sério o Chico, reservado, sisudo, sempre de chapéu e o eterno amigo Bráulio a tiracolo. Não dava trela, mesmo no Quitanda Vinil - que tive a honra de batizar - eram sempre os dois. Olhávamos, questionávamos, pedíamos, brincávamos, mas aquela amizade era intransponível, que o diga Camila, a musa.
De “Bacantes” escolho o canto IX das “Pluralidades”:
“Tudo era muito fácil: não era uma questão de
um abrir e fechar de olhos, mas de um abrir e
fechar de pernas. Para ela era assim.”
Alberto
Ainda na adolescência, conheci Alberto da Cunha Mello, nos livros, é claro. Busquei alguns encontros, mas o cara era difícil. Fui músico, de péssima qualidade, escrevi alguns poemas de caráter duvidosos, e assim a vida prosseguiu. Apenas uma vez ele leu um poema meu em um concurso da Católica, Apocalipse – em quatro cantos, e confessou – confessar é por minha conta – que o meu, era o melhor poema do concurso. Quase não dormi.
Do “Noticiário”:
Ainda na adolescência, conheci Alberto da Cunha Mello, nos livros, é claro. Busquei alguns encontros, mas o cara era difícil. Fui músico, de péssima qualidade, escrevi alguns poemas de caráter duvidosos, e assim a vida prosseguiu. Apenas uma vez ele leu um poema meu em um concurso da Católica, Apocalipse – em quatro cantos, e confessou – confessar é por minha conta – que o meu, era o melhor poema do concurso. Quase não dormi.
Do “Noticiário”:
“Rute,
a mundana do cais”
a mundana do cais”
“Nem tudo e nem todos
Estão perdidos.
Só Rute e o Ocidente
estão perdidos.
Quando o garçom
jogou-lhe uma cadeira
e expulsou-a da terra,
jogou-lhe uma cadeira
e expulsou-a da terra,
o Time silenciou
e “O Estado de São Paulo”
escolheu divulgar
as últimas olimpíadas.
Um dia
o sol explodirá
e os maus também desaparecerão.
Que consolo, hein, Rute?”
França
Fumamos maconha juntos, em Olinda alta – dizíamos bonconha – eu, o poeta aleijado; França, Europa e Bahia, e o poeta Paper, compositor, filósofo e amigo. Conhecemo-nos no bar de Carlinhos Granja, onde fui levado por Erickson, para onde confluíam as boas almas e os loucos da cidade. Quem vive ainda?
Fumamos maconha juntos, em Olinda alta – dizíamos bonconha – eu, o poeta aleijado; França, Europa e Bahia, e o poeta Paper, compositor, filósofo e amigo. Conhecemo-nos no bar de Carlinhos Granja, onde fui levado por Erickson, para onde confluíam as boas almas e os loucos da cidade. Quem vive ainda?
De “Cafuné”, que pescamos em Interpoética:
“À MORTE – por ser imortal,
Ergo um brinde, dizendo:
- À NOSSA VIDA!
e ela responde ofendida:
- NÃO ME ESCAPARÁS!”
Grande Final
Erickson partiu, tive a oportunidade de usufruir de sua cultura, inteligência e amizade.
“À MORTE – por ser imortal,
Ergo um brinde, dizendo:
- À NOSSA VIDA!
e ela responde ofendida:
- NÃO ME ESCAPARÁS!”
Grande Final
Erickson partiu, tive a oportunidade de usufruir de sua cultura, inteligência e amizade.
Espinhara, conhecia apenas de vista, queria a sua amizade, mas ele vivia um momento especial em sua depressão cotidiana.
Alberto, nunca tive a oportunidade de, no bar do Seu Hélio, tomarmos uma cervejinha ou um uísque, as nove da manhã e conversarmos sobre poesia e a existência.
França, nunca vou esquecer do nosso baseado compartilhado e da sua maneira ímpar e doce de reconhecer os amigos.
Já perdi tantos amigos, que tenho hoje um grande desejo, partir antes de vocês:
Já perdi tantos amigos, que tenho hoje um grande desejo, partir antes de vocês:
Carlos Granja, Chico Pena Branca, Adriel Evangelista e Carlos Maia.
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