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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

















CANÇÃO DE MIM MESMO

1.
Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.
Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranquilamente, observando uma haste da relva de verão.
Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.
Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.
2.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.
A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.
A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,
Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.
Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?
Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

Walt Whitman
(trecho - in "Folhas de Relva")














A VOCÊ

Estranho! se, ao passar, você me encontrar e desejar falar comigo,
por que não falar comigo?
E por que eu não falaria com você?






















A UM ESTRANHO

Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.


Walt Whitman

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015




























UMA HORA PARA A LOUCURA E A ALEGRIA!

Uma hora para a loucura e a alegria!
Ó furiosos!  Oh, não me confinem!
(O que é isto que me liberta assim nas tempestades?
Que significam meus gritos em meio aos relâmpagos
e aos ventos rugidores?)

Oh, beber os delírios místicos mais fundamente
que qualquer outro homem!
Ó dolências selvagens e ternas! (Recomendo-as
a vocês, minhas crianças,
Dou-as a vocês, como razões, ó noivo e noiva!)

Oh, me entregar a vocês, quem quer que sejam vocês,
e vocês se entregarem a mim, num desafio ao mundo!
Oh, retornar ao Paraíso!  Ó acanhados e femininos!
Oh, puxar vocês para mim, e plantar em vocês
pela primeira vez os lábios de um homem decidido.

Oh, o quebra-cabeça, o nó de três voltas, o poço fundo
e escuro – tudo isso a se desatar e a se iluminar!
Oh, precipitar-me onde finalmente haverá espaço
e ar o bastante!
Ser absolvido de laços e convenções prévias,
eu dos meus e vocês dos seus!
Encontrar uma nova relação – desinteressada – com
o que há de melhor na Natureza!
Tirar da boca a mordaça!
Ter hoje ou todos os dias o sentimento
de que sou suficiente como sou!

Oh, qualquer coisa ainda não experimentada!
Qualquer coisa em transe!
Escapar totalmente aos grilhões e âncoras dos outros!
Libertar-me!  Amar livremente!  Arremeter perigosa
e imprudentemente!
Cortejar a destruição com zombarias e convites!
Ascender, galgar os céus do amor
que foi indicado para mim!
Subir até lá com minha alma inebriada!
Perder-me, se preciso for!
Alimentar o resto da vida com uma hora
de completude e liberdade!
Com uma hora breve de loucura e alegria.

Walt Whitman
Trad.: Renato Suttana
Fonte: http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br/

sexta-feira, 23 de outubro de 2015






















A pé e de coração leve enveredo pela estrada aberta
Saudável, livre, o mundo à minha frente
À minha frente o longo atalho pardo levando-me aonde eu queira
Daqui em diante, não peço boa-sorte.
Boa-sorte sou eu...

Walt Whitman

quarta-feira, 26 de março de 2014

Para ti - Walt Whitman

























Desconhecido, se tu que passas e me encontras
quiseres a mim te dirigir,
por que não o farás?
E por que eu não deveria contigo dialogar?